Você já ouviu falar do termo a igreja invisível? A ideia da invisibilidade da igreja foi primeiramente desenvolvida em profundidade por Santo Agostinho. Ele fez uma distinção entre a igreja invisível e a igreja visível. Essa distinção de Agostinho tem sido frequentemente mal compreendida. O que ele quis dizer por igreja visível foi a igreja enquanto uma instituição que enxergamos visivelmente no mundo. Ela tem uma lista de membros em seu rol, e podemos identificá-los.

Antes de considerarmos a igreja invisível, deixe-me fazer uma pergunta: você precisa ir à igreja para ser um cristão? A frequência na igreja, se você for fisicamente capaz, é um requisito para ir ao céu? Em um sentido bastante técnico, a resposta é não. No entanto, devemos nos lembrar de algumas coisas. Cristo ordena que seu povo não abandone a comunhão na congregação (Hebreus 10.25). Quando Deus constituiu o povo de Israel, ele os organizou em uma nação visível e colocou sobre eles uma obrigação solene e sagrada de se congregarem na adoração pública diante dele. Se uma pessoa está em Cristo, ela é chamada a participar da koinonia — a comunhão com outros cristãos e a adoração a Deus de acordo com os preceitos de Cristo. Se uma pessoa sabe de todas essas coisas e, de vontade própria, com persistência, recusa-se a unir-se a elas, isso não levantaria sérias dúvidas sobre a realidade da conversão daquela pessoa? Talvez uma pessoa possa ser um novo cristão e tomar essa posição, mas acho muito improvável.

Alguns de nós podemos estar nos enganando em termos de nossa própria conversão. Podemos afirmar sermos cristãos, mas se amamos a Cristo, como podemos desprezar sua noiva? Como podemos, consistente e persistentemente, nos afastarmos daquilo ao qual ele nos chamou para nos unirmos — sua igreja visível? Eu ofereço uma advertência solene àqueles que estão fazendo isso. Você pode, na verdade, estar se enganando sobre o estado de sua alma.

Algumas vezes, a igreja invisível é erroneamente tomada como algo antitético à igreja visível, algo que está fora ou apartado dela. Agostinho não pensou nessas categorias. Agostinho disse que a igreja invisível é encontrada substancialmente dentro da igreja visível. Imagine dois círculos. No primeiro círculo está escrito “a igreja visível”. Essa é a igreja exterior, humanamente percebida, a instituição como a conhecemos. A igreja invisível, como outro círculo, existe substancialmente dentro do círculo da igreja visível. Pode haver algumas poucas pessoas na igreja invisível que não são membros da igreja visível, mas elas são poucas e distantes entre si.

Por que Agostinho fala de uma igreja invisível? Ele o faz para ser fiel ao ensino de Jesus no Novo Testamento. Agostinho ensinou que a igreja é um corpus permixtum. O que isso significa? Nós sabemos o que corpus significa. É um corpo. Corpus Christi significa o quê? O corpo de Cristo. Corporação é uma organização de pessoas. Corpus permixtum significa que a igreja é um corpo misto.

Dentro dos limites físicos da igreja institucionalizada há pessoas que são verdadeiramente crentes, mas também há incrédulos dentro da igreja visível. Eles estão na igreja, mas não estão em Cristo porque fizeram uma falsa profissão de fé. Jesus disse de alguns de seus contemporâneos, “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mateus 15.8). Jesus reconheceu que havia pessoas dentro de Israel que não eram verdadeiros crentes. Paulo disse algo similar: “E não pensemos que a palavra de Deus haja falhado, porque nem todos os de Israel são, de fato, israelitas” (Romanos 9.6). Esses judeus praticavam todos os rituais e eram parte da comunidade visível. Eles participavam de todas as atividades, mas ainda assim eram alheios e estranhos às coisas de Deus.

No Novo Testamento, a metáfora que Jesus usa a esse respeito é a metáfora do joio e do trigo. Joio é uma erva daninha. É uma metáfora simples naquele contexto de agricultura. A fim de obter a produtividade máxima de uma lavoura, é preciso acabar com o joio porque ele parece crescer mais facilmente que a produção.

Jesus usa essa metáfora para dar uma advertência à igreja de que, por um lado, a igreja deve se engajar na disciplina, de forma que as ervas daninhas que ameaçam destruir a pureza da igreja sejam removidas. Ele também nos manda tomar muito cuidado ao exercer a disciplina na igreja, para que, em nosso zelo em purificar a igreja, não arranquemos o trigo junto do joio.

Deus sonda os corações, e o que sempre permanece invisível para mim é a alma de outra pessoa. Eu posso ouvir sua confissão de fé. Posso observar sua vida. Mas não sei o que se passa nos átrios mais profundos do seu coração. Não posso ver sua alma. Não posso ler sua mente. Mas Deus pode ler sua mente, e Deus sabe exatamente qual o estado de sua alma em qualquer dado momento. O que permanece invisível para mim é visível para Deus. Esta é uma distinção com relação à nossa percepção limitada.

Quem está na igreja invisível? De acordo com Agostinho, todos aqueles que são crentes verdadeiros. E ele se referia, claramente, aos eleitos, porque todos os eleitos, de acordo com Agostinho, chegam à fé verdadeira no final. E todos aqueles que chegam à fé verdadeira foram contados entre os eleitos. Então, quando ele falava da igreja invisível, ele estava falando sobre os eleitos, aqueles que verdadeiramente estão em Cristo e são verdadeiros filhos de Deus.

João Calvino disse que não devemos pensar na igreja invisível como algo imaginário ou de uma dimensão paralela. Seguindo o pensamento de Agostinho, Calvino insistiu que a igreja invisível existe substancialmente dentro da igreja visível. Ele disse que a principal tarefa da igreja invisível é tornar a igreja invisível visível.

O que ele quis dizer com isso? Calvino estava se referindo à ascensão de Jesus e à última pergunta que os discípulos lhe fizeram antes de ele deixar este mundo: “Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel”? Jesus disse: Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade; mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra” (Atos 1.7–8).

Essa afirmação feita por Jesus é frequentemente confundida por causa de nosso jargão cristão. Se alguém pergunta a um cristão, “O que significa testemunhar?” a resposta mais comum é “falar de Cristo para alguém”. Isso não é inteiramente falso. Há um sentido em que o evangelismo é uma forma de testemunho. Mas não é a única forma. O propósito de testemunhar é tornar manifesto algo que estava escondido. Calvino disse que é tarefa da igreja tornar visível o reino invisível. Nós fazemos isso, em primeiro lugar, pela proclamação do evangelho — por evangelismo. Mas também podemos fazê-lo modelando o reino de Deus, demonstrando justiça no mundo, demonstrando misericórdia para o mundo, e mostrando ao mundo como deve ser o reino de Deus. Isso significa que a igreja deve personificar e encarnar a vida do Espírito de Deus em tudo quanto ela fizer, para que suas boas obras não estejam escondidas sob o alqueire, mas claramente à vista. Devemos dar testemunho da presença de Cristo e do seu reino para o mundo.

Existe um perigo quando utilizamos os termos visível e invisível. Algumas pessoas pensam que se elas estão na igreja invisível, isso significa que elas podem ser como agentes secretos cristãos. Mas nós sabemos que o mandamento do Novo Testamento é para que demos testemunho de Cristo, mostremos adiante a luz do evangelho e tornemos seu reino visível. E é isso que a igreja deve fazer. A igreja em qualquer ambiente, qualquer localidade, quaisquer gerações sempre é mais ou menos visível e mais ou menos autêntica. Mas mesmo igrejas podem perder sua lamparina e deixar de ser igreja. Igrejas podem se tornar apóstatas. Denominações podem se tornar apóstatas. Congregações inteiras podem abandonar a igreja invisível e não mais ser uma igreja verdadeira.

Você é um membro da igreja invisível? A igreja invisível é uma igreja que sempre desfruta de unidade porque verdadeiramente somos um em Cristo. O ponto de unificação da igreja invisível, aquilo que unifica e transcende as barreiras de igreja e linhas denominacionais, é o nosso enxerto em Cristo. Todos que estão em Cristo e todos em quem Cristo está são membros de sua igreja invisível. Aquela unidade já está presente, e nada pode destruí-la. Isso não significa que podemos descansar nisto. Não podemos simplesmente nos satisfazer com a unidade da igreja invisível. Ainda deveríamos estar trabalhando o máximo possível para uma verdadeira unidade da igreja visível.

Fonte: Trecho do livro "O que é a Igreja?" de R. C. Sproul.

Arthur W. Pink
Não estamos perguntando se Cristo é o seu “Salvador”, mas se Ele é real e verdadeiramente o seu Senhor. Se Ele não é o seu Senhor, então, mui certamente Ele não é o seu “Salvador”. Aqueles que não receberam a Cristo Jesus como o seu “Senhor”, e, apesar disso, supõem que Ele seja o seu “Salvador” estão iludidos, e sua esperança se baseia em um alicerce de areia. Multidões estão enganadas no que diz respeito a esta questão vital; por conseguinte, se o leitor dá valor à sua alma, imploramos-lhe que leia com a mais acurada atenção este pequeno artigo.

Quando perguntamos se Cristo é o seu Senhor, não estamos interrogando se você acredita na divindade de Jesus de Nazaré. Os demônios acreditam nisso (Mt 8.28-29), mas, estão eternamente condenados! Você pode estar firmemente convencido da divindade de Cristo e, apesar disso, continuar em seus pecados. Pode falar nEle com a mais profunda reverência, atribuir-Lhe seus títulos divinos em suas orações e continuar perdido. Pode abominar aqueles que difamam sua pessoa e negam sua divindade, e, não obstante, estar destituído de qualquer amor espiritual por Ele.

Quando perguntamos: Cristo é o seu Senhor? Queremos dizer: Ele ocupa, em tudo, o trono de seu coração; Ele realmente governa a sua vida? “Todos nós andávamos desgarrados… cada um se desviava pelo caminho…” (Is 53.6) descreve o curso de vida que todos seguem por natureza. Antes da conversão, cada alma vive para agradar a si mesma. Há muitos séculos foi escrito que “cada um fazia o que achava mais reto”. E por quê? “Naqueles dias, não havia rei em Israel” (Jz 21.25). Ah! Esta é a verdade que queremos tornar clara para nosso leitor. Enquanto Cristo não se tornar o seu Rei (1 ™ 1.17; Ap 15.3), enquanto você não se inclinar perante o cetro dEle, enquanto a vontade dEle não se tornar a regra de sua vida, o EU o dominará, e, deste modo, Cristo estará sendo negado.

Quando o Espírito Santo começa sua obra graciosa em uma alma, Ele primeiramente a convence de pecado. Ele mostra a autêntica e horrenda natureza do pecado. Ele leva a perceber que o pecado é uma espécie de rebelião e desafio contra a autoridade de Deus; é antepor a própria vontade contra a vontade de Deus. Ele mostra que, ao desviar-me pelo caminho (Is 53.6), ao agradar a mim mesmo, estou apenas lutando contra Deus. E quando meus olhos são abertos, para que eu veja como tenho sido um rebelde durante a vida inteira, como tenho sido indiferente para com a honra de Deus, como tenho sido despreocupado acerca de sua vontade, fico cheio de angústia e horror, sendo levado a maravilhar-me com o fato de que Aquele que é três vezes Santo ainda não me lançou há muito tempo no inferno. Meu caro leitor, você já passou por essa experiência? Em caso negativo, há grave motivo para temer-se que você continue espiritualmente morto!

A conversão, a conversão autêntica, a conversão salvadora, consiste em voltar-se do pecado para Deus, em Cristo. É lançar por terra as armas da minha luta contra Ele; é a cessação do desprezo e da ignorância sobre sua autoridade. A conversão no Novo Testamento é descrita assim: “Deixando os ídolos, vos convertestes a Deus, para servirdes [estardes em sujeição, obedecerdes] o Deus vivo e verdadeiro” (1 Ts 1.9). “Ídolo” é qualquer objeto ao qual damos aquilo que é devido exclusivamente a Deus – o lugar supremo em nossas afeições, a influência transformadora de nosso coração, o poder dominante em nossa vida. A conversão é uma volta de 180 graus, quando o coração e a vontade repudiam o pecado, o “eu” e o mundo. A conversão genuína é sempre evidenciada por aquela atitude que diz: “Que farei, Senhor?” (At 22.10). É a rendição sem reservas de nós mesmos à sua santa vontade. Você já se rendeu a Ele? (Veja Romanos 6.13.)

Existem muitas pessoas que gostariam de ser salvas do inferno, mas que não querem ser salvas de sua vontade própria, que não querem ser salvas de seus próprios caminhos, de uma vida (ou de alguma forma) de mundanismo. Deus, porém, não as salvará de conformidade com as condições que elas mesmas estabelecem. Para sermos salvos, precisamos submeter-nos às condições de Deus. Escute agora estas condições: “Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo, os seus pensamentos; converta-se ao Senhor [pois se revoltou contra Ele em Adão], que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar” (Is 55.7). E Jesus Cristo disse: “Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem [que seja contrário a Mim] não pode ser meu discípulo” (Lc 14.33). É preciso que os homens sejam convertidos “das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus”, antes que possam receber “remissão de pecados e herança entre os que são santificados” (At 26.18).

“Ora, como recebestes a Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele” (Cl 2.6). Esta é uma exortação dirigida a crentes, como se Paulo tivesse dito: “Continuai como começastes”. Porém, como haviam eles “começado”? Recebendo a “Cristo Jesus, o Senhor”, rendendo-se a Ele, deixando de agradar a si mesmos. A autoridade de Cristo tornou-se reconhecida, os mandamentos dEle se transformaram na regra de suas vidas. O amor de Cristo os constrangia a uma obediência exultante e sem reservas. “Deram-se a si mesmos primeiro ao Senhor” (2 Co 8.5). Caro leitor, você já fez isso? Já mesmo? Os detalhes de sua vida evidenciam isso? Aqueles com quem você mantém contato podem ver, agora, que você não está vivendo para si mesmo? (2 Co 5.15)

Ó, meu caro leitor, não se engane: a conversão produzida pelo Espírito Santo é algo completamente radical. É um milagre da graça. É a entronização de Cristo na vida do indivíduo. E tais conversões são raras. Multidões de pessoas têm “religião” suficiente apenas para fazê-las sentirem-se infelizes. É claro que estão se esforçando por servir a dois senhores. Recusam-se a abandonar todo pecado conhecido – e não há verdadeira paz para uma alma enquanto ela faz isso. Tais pessoas jamais receberam a “Cristo Jesus, o Senhor” (Cl 2.6). Tivessem feito isso, e a “alegria do Senhor” seria a força delas (Ne 8.10). Porém, a linguagem existente no coração e na vida dessas pessoas (em bora não em seus “lábios”) é: “Não queremos que este reine sobre nós” (Lc 19.14). Será este o seu caso?

O grande milagre da graça consiste na transformação de um rebelde iníquo em um súdito leal e amoroso. Trata-se de uma “renovação” do coração, de tal maneira que seu dono veio a enojar-se daquilo que amava, e as coisas que julgava desagradáveis, agora lhe parecem atraentes (2 Co 5.17). Ele se deleita, segundo o “homem interior”, na “lei de Deus” (Rm 7.22). Descobre que os “mandamentos” de Cristo “não são penosos” (1 Jo 5.3) e, que, “em os guardar, há grande recompensa” (Sl 19.11). Esta é a sua experiência? Seria, se recebesse a Cristo Jesus, o SENHOR!

Entretanto, receber a Cristo, o Senhor, é algo completamente impossível para o poder humano sozinho. Esta é a última coisa que o coração não-renovado deseja fazer. Deve haver necessariamente uma transformação sobrenatural do coração, antes que apareça até mesmo o desejo de que Cristo ocupe o trono. E essa transformação só pode ser realizada pelo próprio Deus (1 Co 12.3). Por conseguinte, “buscai o Senhor enquanto se pode achar” (Is 55.6), “Buscar-me-eis e me achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração” (Jr 29.13). Caro leitor, talvez você seja alguém que professa ser crente há muitos anos, sendo bastante sincero em sua profissão de fé. Porém, se Deus tiver condescendido em usar este artigo para mostrar-lhe que você nunca recebeu verdadeiramente a “Cristo Jesus, o Senhor”; se agora, em sua própria alma e consciência, você percebe que o EU tem governado sua vida até este momento, não deseja prostrar-se de joelhos e confessar a Deus sua vontade própria, sua rebelião contra Ele e pedir-Lhe que opere de tal modo em você, que, sem demora, você seja capacitado a render-se completamente à vontade dEle, tornando-se um súdito, um servo, um amoroso escravo dEle, em ações e em verdade?


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Fonte: Editora Fiel
Via: Reforma Radical 

A Paciência de Deus - Stephen Charnock

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A Paciência de Deus - Stephen Charnock
Naum profetizou contra Nínive. Embora aos olhos dos homens o julgamento sobre a capital da Assíria parecesse tardio, sem dúvida alguma aquele dia chegaria. Era a paciência de Deus que o detinha. O SENHOR é tardio em irar-se, mas grande em poder, e ao culpado não tem por inocente; o SENHOR tem o seu caminho na tormenta e na tempestade, e as nuvens são o pó dos seus pés (Naum 1: 3). Note a conexão entre o poder de Deus e Sua paciência. O poder de Deus sobre si mesmo é o que faz com que a Sua ira seja lenta. Quando Moisés intercedeu por Israel, em Números 14: 7, ele se apegou a paciência de Deus ao orar da seguinte maneira: Agora, pois, rogo-te que a força do meu Senhor se engrandeça. Deus tem poder sobre si mesmo para suportar grandes injúrias sem vingança imediata. Ele tem tanto o poder da paciência quanto o poder da justiça.

Não devemos pensar sobre a paciência de Deus como se Ele estivesse sofrendo, como ocorre no caso dos homens. Antes, a paciência de Deus nada mais é do que a disposição de adiar a Sua ira sobre criaturas ímpias. Por mais que uma pessoa sofra muito nesta vida, ainda assim ela sofre menos do que na verdade mereceria, por isso deveríamos ser gratos pela paciência de Deus. Outros termos paralelos nas Escrituras incluem: longanimidade, suportar, ficar em silêncio. Este foi um dos atributos que Deus proclamou pessoalmente a Moisés ao dizer: O SENHOR, o SENHOR Deus, misericordioso e piedoso, tardio em irar-se e grande em beneficência e verdade (Êxodo 34: 6).

I.    A NATUREZA DA PACIÊNCIA DE DEUS.

Em alguns aspectos, a paciência de Deus difere de Sua bondade e misericórdia. A misericórdia olha para as criaturas como miseráveis; a paciência as vê como criminosas. A misericórdia se compadece do pecador; a paciência suporta os seus pecados. A misericórdia não teria lugar se a paciência não preparasse o caminho; paciência é o primeiro sussurro da misericórdia. A bondade se estende a todas as criaturas em seu estado original, assim como a todas as criaturas terrenas em seu estado de caídas; paciência com respeito ao homem em particular, considerado como uma criatura culpada. O adiamento do castigo dos anjos caídos não deve ser chamado de paciência, porque onde não há propósito de misericórdia, também não há o exercício da paciência. A paciência é uma complacência temporária, a fim de permitir a mudança do coração. Se o pecado não tivesse entrado no mundo, Deus nunca teria exercido paciência.

A paciência de Deus não está fundamentada em algum tipo de fraqueza da Sua parte. Não é pelo fato de Ele ser incapaz de irar-se, ou que ignore as provocações, ou mesmo que não seja capaz de cumprir Suas promessas. Ele vê e considera cada pecado, pois diz: Estas coisas tens feito, e eu me calei; pensavas que era tal como tu, mas eu te arguirei, e as porei por ordem diante dos teus olhos (Salmo 50: 21).

A paciência de Deus não é fruto da covardia, fraqueza de espírito, ou falta de poder, como normalmente ocorre com os homens. O poder de Deus não diminuiu desde que Ele criou o mundo a partir do nada. Mas bastaria apenas uma só palavra, vinda de Sua boca, para que a criação voltasse a ser “nada” novamente. Ele pode tirar a vida de qualquer pessoa a qualquer momento.

Ao invés da falta de poder sobre Suas criaturas, a paciência de Deus está fundamentada na plenitude do poder que Ele tem em si mesmo. A pessoa considerada mais fraca é aquela que tem menos controle sobre as suas paixões. Portanto, Provérbios 16: 32 diz: Melhor é o que tarda em irar-se do que o poderoso, e o que controla o seu ânimo do que aquele que toma uma cidade. Deus tem tal domínio sobre Si mesmo, que é incapaz de ter qualquer tipo paixão semelhante a dos homens. O Seu exercício de paciência é um dos maiores argumentos a respeito do Seu poder de criar o universo. Deus suportou com muita paciência os vasos de ira, através dos quais Ele demonstraria o Seu poder (Romanos 9: 22). Nós vemos mais do Seu poder através da Sua paciência do que da Sua ira.

O exercício da paciência de Deus é o fundamento da morte de Cristo. Isso fica evidente pelo fato de Deus não ter demonstrado paciência para com os anjos caídos, pois Ele os colocou sob castigo assim que pecaram. Cristo não morreu por eles, mas pelo homem. Mesmo aqueles homens que Ele não redimiu em Sua morte, receberam certos benefícios temporais disso, especialmente por desfrutarem da paciência de Deus. Neste sentido, é dito a respeito de Cristo que Ele resgatou aqueles sobre os quais virá repentina destruição, e cuja perdição não dormita (II Pedro 2: 1-3). Ele comprou o direito da continuidade de suas vidas, e aguarda a sua execução, a fim de que a oferta da graça pudesse ser feita a eles. Como a graça não pode ser encontrada fora de Cristo, assim a paciência não poderia ser conhecida sem o sacrifício de Cristo. A vinda de Cristo foi o motivo pelo qual vemos Deus exercendo a Sua paciência nos tempos do Velho Testamento. Hoje, o ajuntamento dos Seus eleitos é o motivo do exercício da Sua paciência.

Nenhum outro atributo impede o exercício da paciência de Deus. A veracidade das ameaças de castigo não é violada simplesmente porque Deus espera muito tempo para cumpri-las. Nos quarenta dias que Ele concedeu a Nínive, através de Jonas, a mensagem era clara quanto à condição de arrependimento da parte deles, caso contrário, a cidade não seria poupada. Da mesma maneira, a ameaça de morte feita a Adão, caso ele comesse da árvore proibida, não foi cumprida até onde a compreensão da morte eterna pudesse ser alcançada, pois um Fiador se apresentou, cuja morte honra mais a Deus do que se o próprio Adão tivesse morrido. Tampouco a paciência de Deus entra em desacordo com a Sua justiça e retidão. Nunca achamos que um juiz esteja errado por adiar um julgamento ou a execução do mesmo por razões justas. E que ninguém pense o contrário por achar que Deus não tenha bons motivos para exercitar Sua paciência! Ele não tem prazer em ver a morte do Seu povo (II Pedro 3: 9 – a longanimidade diz respeito a nós, isto é, aos Eleitos de Deus, a quem a promessa é feita). Deus glorificou Sua justiça em Cristo, e a Sua paciência agora está em perfeita harmonia com a Sua justiça. Além disso, Deus tem o direito de escolher o tempo e ocasião que melhor lhe agrada para executar o julgamento dos malfeitores. Os tempos e estações estão nas mãos e no poder do Pai (Atos 1: 7). A justiça tem toda a eternidade para demonstrar a si mesma, mas a paciência não. Ao invés de ser violada, a justiça se faz mais visível pela paciência de Deus, toda objeção contra a justiça será mais do que removida, por causa da grande paciência que Deus tem demonstrado para com os pecadores.

II.    COMO A PACIÊNCIA DE DEUS É MANIFESTADA.

Consideremos alguns exemplos gerais:

Ele manifestou Sua paciência a Adão e Eva. Deus os poderia ter matado no momento em que eles primeiramente consentiram com a tentação, porque foi assim que o pecado teve início, pois comer foi mais o fim de um ato do que propriamente o seu começo. Ao invés disso, Deus permitiu que Adão vivesse 930 anos. Permitir que a raça humana viva até hoje, é um testemunho da Sua paciência.

Deus manifestou Sua paciência aos Gentios. Seus crimes, descritos em Romanos 1, são abundantemente suficientes para que a ira do Todo-Poderoso caia sobre eles num só momento. Entretanto, Deus é tão grandiosamente paciente, que não leva em conta os tempos da ignorância (Atos 17: 30). Ele pisca como se não os visse, não os chamando para prestar constas dos seus pecados neste determinado momento.

Deus manifestou Sua paciência com Israel. Embora Deus soubesse que eles eram um povo obstinado, suportou os seus costumes no deserto (Atos 13: 18). Deus os suportou por quase mil e quinhentos anos, desde a época do Êxodo, até a destruição da cidade de Jerusalém pelos Romanos.

Vamos considerar agora algumas maneiras específicas pelas quais Deus manifesta este atributo:

1.    Ele avisa de antemão os Seus julgamentos. Muitas páginas do Velho Testamento são uma prova clara disso. Quantos profetas de Deus foram enviados com uma mensagem de desgraça iminente! Enoque e Noé avisaram os antediluvianos. Todo julgamento extraordinário que sobreveio a Israel foi profetizado; desde a fome no Egito, profetizado por José; até a desolação de Jerusalém, predita por Cristo. O propósito claro destes avisos era evitar que Deus derramasse a Sua ira. Antes que Ele fira, Ele levanta a sua mão e agita a Sua vara, a fim de que o homem perceba e evite ser castigado. Através de Jonas, Deus ameaçou Nínive com destruição, para que o arrependimento daquela cidade pudesse evitar o cumprimento da profecia. Ele ruge como um leão, para que o homem ouça a Sua voz e proteja-se a si mesmo de ser despedaçado pela Sua ira.

2.    Deus adia os Seus julgamentos, mesmo que os rebeldes não se arrependam. Quantas vezes não se executa logo o juízo sobre a má obra (Eclesiastes 8: 11)! Enquanto Deus prepara as Suas flechas, espera pacientemente por uma ocasião para colocá-las de lado, e embotar suas pontas. Ele disse a Israel: Porque não tenho prazer na morte do que morre, diz o Senhor DEUS; convertei-vos, pois, e vivei (Ezequiel 18: 32). Ele pacientemente restringiu a Sua ira sobre Sodoma, até chegar ao ponto máximo que Sua justiça suportava, não permitindo mais restringi-la. Ele suportou a iniquidade dos Amorreus por quatrocentos anos (Gênesis 15: 16). Ele prolongou o julgamento de Acabe por causa de uma mera sombra de humilhação da sua parte. Ele esperou quarenta anos para se vingar da geração que crucificou Seu Filho Unigênito.

3.    Quando Deus já não pode mais adiar, então Ele executa Seus juízos, mas como se não desejasse fazê-lo. Porque não aflige nem entristece de bom grado aos filhos dos homens (Lamentações 3: 33). As profecias carregadas com julgamentos são chamadas de peso do Senhor, não somente porque são um peso para aqueles que o recebem, mas também para Aquele que os envia. Vemos o mesmo pesar no dilúvio: Então arrependeu-se o SENHOR de haver feito o homem sobre a terra e pesou-lhe em seu coração (Gênesis 6: 6). Considere ainda as Suas palavras em Oséias 6: 4: Que te farei, ó Efraim? Que te farei, ó Judá? Porque a vossa benignidade é como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa. Por isso o Salmista exclama: Ele, porém, que é misericordioso, perdoou a sua iniquidade; e não os destruiu, antes muitas vezes desviou deles o seu furor, e não despertou toda a sua ira (Salmo 78: 38), como se Ele estivesse indeciso quanto ao que fazer. Uma vez que o julgamento se inicie, ele ocorre gradualmente. Primeiro vem a lagarta, em seguida o locusta, depois a locusta, e por último, o pulgão (Joel 1: 4).

4.    Deus ameniza os Seus julgamentos ao enviá-los. Ele não esvazia a Sua aljava de uma vez, nem abre todo o seu arsenal. Ele frequentemente pune alguns poucos, para que sirvam de exemplo, ao passo que poderia punir a todos. Esdras assim orou: E depois de tudo o que nos tem sucedido por causa das nossas más obras, e da nossa grande culpa, porquanto tu, ó nosso Deus, impediste que fôssemos destruídos, por causa da nossa iniquidade, e ainda nos deste um remanescente como este (9: 13). Deus não amaldiçoou a terra para que não produzisse fruto, mas que esta desse fruto mediante o trabalho cansativo da parte do homem. Até mesmo quando nos castiga, Deus ainda assim nos auxilia.

5.    Deus pacientemente continua a derramar Suas misericórdias, mesmo depois de O provocarmos. Enquanto o homem continua no pecado, Deus continua a manter as Suas misericórdias da graça comum. Israel murmurou ao chegar ao Mar Vermelho, e ainda assim Deus realizou uma extraordinária libertação ali.

6.    Tudo isso é espantoso, principalmente quando consideramos as nossas muitas provocações contra Deus. Não devemos subestimar a enormidade dos nossos pecados. Cada um deles é uma alta traição contra o Rei dos céus. Sua justiça, santidade, e onisciência clamam por um julgamento, mas a paciência absoluta adia o julgamento por um tempo. A quantidade de pecado que temos cometido é estrondosa, muito além do que poderíamos calcular. Quantos pecados um homem comete durante toda a sua existência? Quantos pecados de omissão podem ser contabilizados? Quantas provocações feitas aqui na terra se levantam contra os céus em apenas um único dia? E considere o quanto Deus tem sido paciente com este mundo. Por seis mil anos, cada canto da terra tem participado das riquezas da bondade, tolerância, e longanimidade de Deus. Nenhum pecado lhe é oculto, e não há criatura alguma encoberta diante dele; antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar (Hebreus 4: 13). Como a paciência de Deus é grande! Os anjos ficariam felizes de receber uma ordem vinda do trono de Deus para destruir imediatamente este mundo ímpio, e somente a paciência de Deus é que poder deter tal fúria.

III.    PORQUE DEUS EXERCE TANTA PACIÊNCIA.

Ao exercer paciência, Deus se mostra a si mesmo apaziguável. Ele nãos se mostra implacável, mas reconciliável. A Sua paciência mostra ao homem que ele pode encontrar um Deus que lhe é favorável, caso o busque e o siga. O fato de Deus não ter destruído Adão e Eva imediatamente, mas suportado a ambos, demonstrou Sua paciência e deu assim ao homem a esperança de algo melhor, mesmo que isso não tivesse sido claramente revelado. Até os pagãos, que só testemunham da glória de Deus nos céus (Salmo 19: 1), deveriam deduzir que Aquele que os criou é misericordioso, a despeito de tantas ofensas que eles tem cometido. E contudo, não se deixou a si mesmo sem testemunho, beneficiando-vos lá do céu, dando-vos chuvas e tempos frutíferos, enchendo de mantimento e de alegria os vossos corações (Atos 14: 17). Deus não está fingindo ser amigo dos Seus inimigos, mas na verdade está se mostrando amigável, encorajando-os ao arrependimento, e dando-lhes uma base firme de esperança de perdão.

Ao exercer paciência, Deus concede aos homens uma ampla oportunidade de arrependimento. Ele diz exatamente isso a respeito de Jezabel, a mulher citada na igreja de Tiatira. E dei-lhe tempo para que se arrependesse da sua prostituição; e não se arrependeu (Apocalipse 2: 21). Pedro escreveu que a longanimidade do Senhor é salvação (II Pedro 3: 15), isto é, a paciência de Deus é a Sua solicitação para que o homem atenda aos meios de salvação. Pedro continua a dizer que Paulo, inspirado por Deus, escreveu a mesma coisa, referindo-se, é claro, a Romanos 2: 4; o qual nos diz que a bondade de Deus conduz o homem ao arrependimento. A bondade e longanimidade nos tomam pela mão, apontando para onde devemos seguir. Já que todo homem por natureza sabe que os pecadores merecem o julgamento de Deus (Romanos 1; 22), então eles não poderiam racionalmente interpretar mal a paciência exercida por Ele, considerando-a como uma forma de aprovação dos seus pecados. Um raciocínio saudável deveria levá-los a pensar que a lentidão da ira de Deus, e a Sua disposição em adiar o Seu julgamento, são provas claras da Sua divina paciência.

O exercício da paciência de Deus permite a propagação da humanidade. Sem paciência, nenhuma raça procederia de Adão. A honra de Deus seria manchada, pois Deus formou a terra, e a fez; ele a confirmou, não a criou vazia, mas a formou para que fosse habitada (Isaías 45: 18).

Deus exercita paciência para a continuidade da aliança feita com Seu povo. Este é um propósito especial da parte de Deus. Ele é paciente com a humanidade em geral, pois é dela que Deus chama os Seus eleitos para a salvação. Eles procedem desta fonte de pecadores. Uma mulher condenada à pena capital não poderia ser executada caso estivesse grávida, mas o adiamento ocorria por causa da criança, e não por causa dela. Da mesma maneira, se Deus tivesse executado o rei Acaz por causa do seu pecado, o rei Ezequias, que foi um bom rei, nunca teria nascido. Deus suportou por muito tempo a rebelião de Israel, e isso por causa do Salvador dos pecados que nasceria daquela nação. É por causa do Seu próprio nome que Ele adia a Sua ira. Como um capitão paciente, Deus espera até que todos os Seus passageiros estejam a bordo.

A paciência que Deus exerce com o ímpio é para o bem do Seu povo. Arrancar o joio agora, iria prejudicar a boa planta. Deus pouparia Sodoma se pudesse contar nos dedos da mão um número de pessoas tementes a Deus naquela cidade. Ele também usa o ímpio para aperfeiçoar a paciência dos santos. Ao demonstrar esta paciência com os ímpios, Deus nos prova ou nos protege, e isso para o nosso próprio proveito.

Através da paciência de Deus, os pecadores são deixados sem desculpas, e a Sua ira santa é justificada mais ainda. Como a sabedoria é justificada por seus filhos, assim também a justiça com aquele que se rebela contra a paciência. Como os homens podem culpar a Deus por alguma ofensa contra eles, quando na verdade eles é que rejeitam a Sua oferta? Já que Deus tem o direito de castigar o homem, a despeito de este ter cometido apenas um pecado, sendo que Ele pacientemente tem suportado inúmeros, não ficará o homem totalmente inescusável por continuar no pecado? Por isso, todo pecador é incontestavelmente merecedor da ira de Deus. Deus é longânimo aqui, para que a Sua justiça seja evidenciada publicamente no futuro.

Finalmente, as implicações práticas deste atributo devem ser aplicadas aos nossos corações.

I.    INSTRUÇÃO.

A paciência de Deus é abusada. Em última análise, todo pecador é culpado deste abuso. Muitos homens olham para a paciência de Deus de forma errada, ao considerarem que isso não passa de uma negligência ou um descaso da Sua parte. Alguns até imaginam que isso seja uma forma de consentimento com o seu pecado, fazendo com que Deus seja um cúmplice de seus crimes. Pelo fato de Deus permanecer em silêncio, os homens pensam que Ele seja totalmente parecido com eles (Salmo 50: 21). Qualquer um que continue na prática do pecado, abusa da paciência de Deus, como se Deus os estivesse protegendo, enquanto se rebelam contra Ele. Quantos homens cessaram de pecar enquanto estavam sob a vara de Deus, mas assim que Ele, em Sua paciência, retirou a vara, eles retornaram aos seus antigos caminhos! Eles agem como se Deus tivesse reabastecido a Sua paciência e assim pudessem continuar pecando mais ainda. Desta forma, a paciência que deveria amolecer seus corações, acaba por endurecê-los. O Faraó foi de certo modo descongelado pelos castigos, mas congelado novamente quando Deus o rejeitou. Os homens abusam deste atributo ao tomarem coragem de ir mais fundo, abraçando pecados ainda maiores. Porquanto não se executa logo o juízo sobre a má obra, por isso o coração dos filhos dos homens está inteiramente disposto para fazer o mal (Eclesiastes 8: 11).

O abuso deste atributo é um grande mal. Cada novo pecado que se comete contra a paciência gradativa de Deus, faz com que o pecado se torne mais grave, e digno assim de um maior castigo.

É muito perigoso abusar da paciência de Deus, pois ela terá um fim. Não contenderá o meu Espírito para sempre com o homem (Gênesis 6: 3). A Sua paciência termina quando o homem parte desta vida. Deus tem a ira para punir assim como a paciência para suportar. Que ninguém pense que Deus não exercerá a sua ira simplesmente porque Ele é tardio em irar-se (Êxodo 34: 6). Embora a paciência sobrepuje a justiça ao suspendê-la, a justiça finalmente sobrepujará a paciência ao silenciá-la totalmente. Deus é lento para tirar uma flecha da Sua aljava, e lento ao levá-la até o arco, mas nunca erra o seu alvo. Ele suportou a nação de Israel por muito tempo, mas a pulverizou até as cinzas pelo poder do império Romano! Quanto mais a Sua paciência é abusada, maior será o exercício da Sua ira. Enquanto o homem está abusando deste atributo, Deus está afiando a Sua espada. Quanto mais eles pecam, mais cortante fica o fio da espada. Quanto mais Ele toma fôlego para soprar, maior será a queda deles. E finalmente quando o juízo chegar, este será rápido e severo. Então veremos que teria sido muito melhor ter sido castigado antes, do que ter abusado da paciência de Deus e acumulado um grande tesouro de ira. Um dos grandes tormentos do inferno será o de lembrar-se da longanimidade de Deus e o seu inescusável abuso.

Este atributo explica por que Deus permite que Seus inimigos oprimam o Seu povo, pois só assim podemos ver o poder que Ele exerce sobre si mesmo. Deus não teria adquirido um nome tão grande nos dias de Moisés, se tivesse eliminado Faraó na sua primeira perseguição contra a nação de Israel.

Este atributo explica por que Deus permite que o pecado ainda permaneça naqueles que foram regenerados, pois só assim podemos pessoalmente conhecer a sua paciência. No céu, não haverá lugar para este atributo, pois não haverá mais provocações. Este mundo é o único lugar para a paciência ser demonstrada. Na eternidade, este atributo permanecerá guardado na Divindade.

II.    CONFORTO.

A paciência de Deus tem um significado especial para os cristãos. Nosso Pai Celestial é o Deus de paciência e consolação (Romanos 15: 5). A primeira expressão de conforto dada a Noé, após ele sair da arca, foi a confirmação da paciência de Deus, e isso se fez através da promessa de Deus de não mais destruir a terra com um dilúvio (Gênesis 9: 11). Desde que o mundo não melhorou em nada, é evidente que a manifestação da paciência de Deus, para com o novo mundo, é maior do que aquela manifestada ao velho.

Por que a paciência de Deus é um conforto para os cristãos?

- Porque ela prova a graça de Deus para com Seu povo. Se Ele é paciente com aqueles que não se arrependem e creem, certamente o será muito mais com aqueles que reconhecem que tal paciência os conduziu àquele propósito revelado, ou seja, ao arrependimento.

- Porque ela é um alicerce firme para confiarmos em Suas promessas. Se as provocações dos homens não são prontamente respondidas com um castigo da parte de Deus, a fé nEle redundará num “bem-vindo benditos de meu Pai.”

- Porque ela é um grande conforto nas enfermidades. O que seria de nós se Deus trouxesse cada um Seus santos para prestar contas dos pecados? Não poderíamos nem sequer completar uma oração! Mas Deus é um Pai paciente, e nos poupa como um homem poupa a seu filho, que o serve (Malaquias 3: 17). Pense em como Ele suporta a nossa adoração e serviço imperfeitos!

III.    EXORTAÇÃO.

Vamos meditar sempre sobre a paciência de Deus. Como podemos nos esquecer deste atributo, quando ele está presente em cada pedaço de pão e em cada respiração? Nada agrada mais ao Diabo do que distorcer este atributo em nossas mentes. Mas meditar nessa excelente perfeição de Deus fará:

- Que Deus nos seja mais amável. Em alguns aspectos, este atributo é mais espantoso do que Sua bondade, a qual é demonstrada a toda criação. A paciência tem a ver com as criaturas caídas.

- Que o nosso arrependimento seja mais frequente e mais sério. Ao percebermos que pecamos contra um Deus tão gentil, isso deveria nos envergonhar perante Ele. O fato de ainda existirmos não é um testemunho da pequenez dos nossos pecados, mas da imensidão da paciência de Deus. Oh, miserável homem que sou, abusando assim da longanimidade de Deus e com isso ofendendo-O! Oh, que infinita paciência, ao usar o Seu poder pra me preservar, quando poderia usá-lo para me condenar!

- Que fiquemos mais ressentidos com as injúrias que outros cometem contra Deus. Qualquer paciente que sofre atrai a compaixão dos homens. Quando vemos a paciência de Deus sendo menosprezada pelos homens, isso deveria nos levar a defender a Sua causa.

- Que sejamos pacientes sob a vara da mão de Deus. Se levássemos em conta o quanto Ele nos poupa, certamente daríamos graças nas tribulações ao invés de murmurar.

Vamos admirar e nos maravilhar com tamanha paciência, louvando a Deus por isso. Se tivéssemos roubado o nosso vizinho, ele certamente se vingaria, a menos que fosse muito fraco para fazê-lo. Nós temos feito pior com Deus, e ainda Ele mantém a Sua espada na bainha. Certamente que no céu, uma grande parte dos nossos hinos será em louvor a paciência que Deus demonstrou para conosco, ao nos chamar em Cristo; e em preservar a nossa vida; a despeito dos incontáveis insultos que cometemos contra Ele. Somente quando estivermos em uma distância segura, e contemplarmos de longe o inferno de que somos merecedores, é que reconheceremos o quanto somos devedores a Deus. Assim como Paulo, vamos olhar para nós mesmos como aqueles a quem Deus mostrou toda longanimidade (I Timóteo 1: 16).

A fim de elevar os nossos pensamentos a respeito deste atributo, vamos ressaltar alguns pontos:

- O número dos nossos pecados. Cada minuto que vivemos, o fato de sermos pecadores fica mais evidente, assim como o exercício da paciência de Deus. Pense no efeito que um só pecado causou sobre Adão, ou Moisés, ou Ananias e Safira. Agradeça a Deus por Ele exercer paciência conosco!

- Que somos criaturas vis. Vamos permanecer em espanto diante da glória de Deus, que condescendeu em descer e esperar por nós, que não passamos de vermes da terra.

- Como é sublime e santo Aquele que espera por nós. Um momento de paciência da parte de Deus transcende toda a paciência, de todas as criaturas combinadas ao mesmo tempo.

- O quanto Ele tem sido paciente até aqui. Um homem condenado a pena capital, considera um privilégio o adiamento de sua sentença por trinta dias, mas Deus tem dado a muitos homens trinta anos ou mais, a despeito das grandes ofensas por eles cometidas. Os que foram condenados ao inferno, reconhecem que foi um ato de bondade da parte de Deus o fato de terem sido poupados apenas um dia, pois desta forma também lhes foi concedido uma oportunidade para se arrependerem.

- O quanto Deus tem sido mais paciente com você do que com outros. Quantas pessoas que cercam a sua vida já morreram e você ainda continua vivo! Os seus pecados são menores do que os deles? Ou será que Deus, de fato, está sendo mais paciente com você? Se Deus já tivesse colocado um fim em sua vida, antes de você ter se preparado para a vida eterna, como seria deplorável a sua condição hoje. Que aqueles cujas vidas passadas se encontravam na cova profunda da morte devem fazer a seguinte consideração: Deus poderia ter tirado a minha vida enquanto estava no caminho da prostituição. Será que você ficará cansado de louvar e engrandecer a Deus por Sua tão grande paciência?

Não devemos tirar conclusões erradas sobre a paciência de Deus. Os pecadores devem entender que embora estejam sob a paciência de Deus, estão também sob Sua ira. Deus se ira todos os dias com o ímpio (Salmo 7: 11). Não continue a desperdiçar as oportunidades tão preciosas que Deus tem dado a você até agora, a fim de você possa abandonar o pecado e voltar-se para Ele. Lembre-se, o inferno está cheio de pessoas que desfrutaram da paciência de Deus. Portanto, você necessita mais do que a Sua paciência. A paciência de Deus diz que Ele é aplacável, mas não que dizer que Ele foi aplacado. Um Deus aplacável é um privilégio somente daqueles que genuinamente se arrependeram dos seus pecados e creram no Senhor Jesus Cristo como único Salvador.

Vamos imitar este atributo de Deus, sendo pacientes com outras pessoas. Como Deus é diferente do homem apressado! Já que Deus se mostra paciente com as nossas muitas injúrias, como podemos ser tão apressados em nos vingar de outras pessoas por causa de uma pequena ofensa? É no contexto de fazer o bem aos nossos inimigos que nosso Senhor nos ensinou a sermos semelhantes a Deus. Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus (Mateus 5: 48). Portanto, vamos demonstrar o poder que Deus exerce sobre o nosso próprio espírito, e sejamos tardios em irar-nos.

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Autor: Stephen Charnock 
Tradução: Eduardo Cadete 2011 

Fonte: Palavra Prudente


Eu vos mostrarei as oito propriedades particulares de um homem sem Cristo.    

1. Todo homem sem Cristo é um homem vil.  
2. Ele é um escravo.  
3. Ele é um homem miserável.  
4. Ele é um homem cego.  
5. Ele é um homem deformado.  
6. Ele é um homem desconsolado.  
7. Ele é um homem morto, 
e 8. Ele é um homem condenado.  

Estas são as oito propriedades de um homem sem Jesus Cristo. Primeiro, todo homem sem Jesus Cristo é um homem vil. Embora você seja nascido de sangue de nobres, e embora você seja da descendência de príncipes, ainda assim, se você não tem o sangue real de Cristo correndo em suas veias, você é um homem vil.  

Em Daniel 11:21 e Salmos 15:4, vocês leem sobre. Assim é todo o homem sem Cristo, e ele deve ser assim, por que é somente Cristo quem pode retirar está vileza na qual cada um está por natureza. Em Isaías 43:4, Deus diz: “Visto que foste precioso aos Meus olhos, também foste honrado”. E, em 1 Pedro 2:7: “E assim para vós, os que credes” Cristo é “precioso”. É Jesus Cristo quem coloca um diamante de honorável glória sobre os homens. Eles são todos homens vis, os que estão fora de Jesus Cristo, e isto nestes três aspectos: 

1 - Eles vêm de uma origem vil. 2 - Eles comentem ações vis; e 3 - Eles aspiram por finalidades vis.  

Todo homem que está fora de Cristo vem de uma origem vil. Ele não tem sua origem no Espírito, mas na carne. Ele não procede de Deus, que é o Pai das luzes, mas do diabo, que é o príncipe das trevas.  

Ele é vil porque ele comete ações vis. Todas as ações e serviços de um homem sem Cristo, no máximo, são apenas como trapos imundos e trabalhos mortos. Um homem, em seu estado não-convertido, é o escravo e servo do diabo, um obreiro da iniquidade, ainda executando os desejos da carne e da mente, sendo entregue a vis afeições.  

É um homem vil, aquele que está sem Cristo, porque deseja por finalidades vis em tudo o que faz, e isto de duas formas: (1) Neste mundo, ele deseja por finalidades vis em seu ouvir, ler, orar, e profissão de fé. Ele se importa consigo mesmo e seus próprios fins em tudo o que faz. (2) Todas as suas ações tendem a fins vis no mundo vindouro. Como as ações do homem em Cristo tendem à salvação, assim as ações do homem sem Cristo tendem à condenação. 

Segundo, um homem sem Cristo não é somente um homem vil, mas um escravo. Isto Cristo nos conta em João 8:36: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres, ” indicando que se você não há um interesse em Cristo para livrar-te da escravidão do pecado e de satanás, você ainda é escravo. Estas servidão e escravidão, de igual modo, consistem em três particularidades: 1. Eles são escravos do pecado; 2. Do diabo, e 3. Da lei.  

1. Todo homem sem Cristo é um escravo do pecado. Em João 8:34, Jesus diz: “Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado”, e em 2 Pedro 2:19: “Prometendo-lhes liberdade, sendo eles mesmos servos da corrupção. Porque de quem alguém é vencido, do tal faz-se também servo”. Todo homem, por natureza, é um servo de suas luxúrias, um escravo do pecado, e das criaturas. Deus fez o homem acima de todas as criaturas, mas o homem fez-se servo de todas as criaturas.  

2. Ele não está somente em servidão e escravidão do pecado, mas também do Diabo. Os últimos dois versículos de 2 Timóteo 2 diz: “Instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade, E tornarem a despertar, desprendendo-se dos laços do diabo, em que à vontade dele estão presos. ”  

3. Ele está em escravidão da Lei, ou seja, ele não faz nada em obediência à lei; e esta é a grande miséria de um homem sem Cristo. Ele é limitado a guardar toda a lei de Deus. Há uma expressão bem singular em Apocalipse 18: 10-13. São João diz que todos aqueles que adoraram a besta clamarão: Ai! Ai daquela grande cidade de Babilônia [caiu], E sobre ela choram e lamentam, corpos e almas de homens. Todos os homens ímpios são escravos do anticristo, do pecado e da lei, e esta é a grande miséria de um homem não-regenerado.  

Terceiro, você não é somente um homem vil e um escravo, mas um homem miserável também, sem Jesus Cristo; pois todas as riquezas da graça e misericórdia estão escondidas e seladas em Cristo como em uma loja comum ou celeiro. Colossenses 2:3: “Em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência”. Se você está fora de Cristo, você não tem nada. Como está escrito em Apocalipse 3:17: “Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu”. Você admitirá que ele é um pobre e miserável homem que carece destas quatro coisas: carne para a sua barriga, roupas para as suas costas, dinheiro para a sua bolsa, e uma casa para descansar sua cabeça. Por que, em todos estes aspectos, cada homem que está fora de Cristo é um homem miserável.  

1. Um homem miserável é alguém que não tem alimento para pôr em seu ventre, e todos vocês que não têm interesse em Jesus Cristo são miseráveis, a este respeito, porque vocês não se alimentam do Pão da Vida, nem bebem da Água da Vida, o Senhor [Jesus] Cristo, aquele cuja carne é de fato alimento, e cujo sangue é de fato bebida, sem os quais as vossas almas morrerão de fome.  

2. Você dirá que é um pobre homem, aquele que não tem roupas para pôr sobre suas costas. Assim, todo homem sem Cristo, não é apenas pobre, mas nu. Apocalipse 3:17: “e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu”. Este homem que não está vestido com as longas vestes da Justiça de Cristo é um homem nu, e é exposto à ira e vingança do Deus Todo-Poderoso. Aqueles homens tem um manto para cobrir a sua nudez e vergonha, aqueles que são vestidos com as vestes da Justiça de Cristo. É dito de Jacó que ele obteve a bênção de seu pai por estar vestido com as roupas de seu irmão mais velho, e assim nós apenas somos abençoados por Deus nosso Pai, porquanto nós somos vestidos com as vestes de nosso irmão mais velho, Jesus Cristo. 

3. Este homem é um homem miserável, que não tem dinheiro em sua bolsa. Assim, embora as vossas bolsas estejam cheias de ouro, se vossos corações não estiverem cheios de graça, vós sois homens mui miseráveis, Lucas 16: 11. Graça é a única riqueza verdadeira. Todas as riquezas duráveis são vinculadas a Cristo.  

4. E finalmente, é um homem miserável aquele que não tem uma casa para reclinar a cabeça, que é destituído de uma casa para alojar-se e uma cama para repousar. Assim, você que não tem interesse em Cristo, quando os seus dias são expirados e a morte vem, você não sabe o que fazer nem para onde ir. Você não pode dizer como o homem piedoso que quando a morte o tirar daqui, que você será recebido nas habitações eternas. Você não pode dizer que Cristo partiu antes para preparar um lugar para você no céu. Assim, então, nestas quatro particularidades, vocês veem que o homem sem Cristo é um homem mui miserável, não tendo nem alimento para o seu corpo, nem roupas para as suas costas, nem dinheiro para a sua bolsa, nem uma casa para reclinar sua cabeça, a menos que esta seja um calabouço das trevas com demônios e espíritos condenados.  

Quarto, outra característica do homem sem Cristo é que ele é um homem cego. Apocalipse 3:17: e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu”. Por isso que os homens ímpios, durante a sua não-regeneração, são chamados “trevas”. Efésios 5:8: “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz”. Assim, a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. 

Jesus Cristo é para a alma o que o sol é para a terra. Retire o sol da terra, e não é nada, apenas um calabouço das trevas. Assim, retire Cristo da alma, e esta não é nada, apenas um calabouço do Diabo. Embora haja um Cristo no mundo, se o coração está fechado e Jesus Cristo não está em você, você está no estado de trevas e cegueira.  

Quinto, todo homem sem Cristo é um homem deformado, como você pode ler em Ezequiel 16: 3-14: “E dize: Assim diz o Senhor DEUS a Jerusalém: A tua origem e o teu nascimento procedem da terra dos cananeus. Teu pai era amorreu, e tua mãe hetéia”; no versículo 6: “E, passando eu junto de ti, vi-te a revolver-te no teu sangue, e disse-te: Ainda que estejas no teu sangue, vive; sim, disse-te: Ainda que estejas no teu sangue, vive”. Quando uma pobre criança repousa banhada em seu sangue, não enfaixada, não lavada, não cuidada, que triste condição em que está? E, assim estava você, diz Deus. Mas, depois, leia o versículo 7: “Eu te fiz multiplicar como o renovo do campo, e cresceste, e te engrandeceste, e chegaste à grande formosura”. Depois o que está no versículo 14: “E correu de ti a tua fama entre os gentios, por causa da tua formosura, pois era perfeita, por causa da minha glória que eu pusera em ti, diz o Senhor DEUS”, indicando que, antes de Cristo olhar sobre uma alma, ela repousa banhada em seu próprio sangue e incapaz de ajudar a si mesma, mas quando alguém vem graciosamente através de Cristo, formosura é lançada sobre ele. Se você carece de Cristo, você carece de seu melhor ornamento.  

Sexto, outra característica de um homem sem Cristo é que ele é um homem desconsolado. Cristo é a única nascente de consolo e a fonte de todo júbilo e consolação. Retire Cristo da alma, e isto é como se você retirasse o sol do firmamento. Se um homem tem todas as bênçãos no mundo, e carece de Cristo, ele carece daquilo que poderia adoçar todos os restantes de seus desconfortos. Em Êxodo 15:23-25, você lê sobre as águas de Mara. Elas eram tão amargas que ninguém poderia bebê-las, mas quando o Senhor mostrou a Moisés uma árvore a qual, quando ele lançou sobre as águas, as tornou em água doce. Porque, Jesus Cristo é esta árvore. Ele adoça a amargura de qualquer aflição exterior e Ele pode fazer todos os seus sofrimentos fugirem para longe. Não há nada no mundo que adoce os consolos e nos dê alegria na posse das coisas desde mundo mais do que ter um interesse em Jesus Cristo.  

Não é nada, amados, ter muito da criatura em nossa casa, mas ter a Cristo em nossos corações [é] que faz você viver confortavelmente. Todo o pão que você come será pão de amargura se você não se alimentar do corpo de Jesus Cristo; e tudo o que você beber será apenas vinho de assombro de você não beber do sangue de Jesus Cristo. Sem um interesse em Cristo, todos os seus confortos são apenas cruzes; e todas as suas misericórdias são apenas misérias, como em Jó 20: 22: “Sendo plena a sua abastança, estará angustiado; toda a força da miséria virá sobre ele. ” Embora você tenha abundância de coisas desta vida, embora você tenha mais do que o suficiente, ainda se você não tem um interesse em Cristo, você não tem nada.  

Sétimo, outra propriedade de um homem fora de Cristo é que ele é um homem morto. Você conhece o lugar comum em 1 João 5:12: “Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida. ” Por isso quando nós lemos em Efésios 2:1 que os homens não-regenerados estão mortos em delitos e pecados, e a razão é que Cristo é a vida do crente. Colossenses 3:3: “e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus”. Retire Cristo de um homem e você retira a sua vida, e retire a vida de um homem e ele é uma massa de carne morta. Homens não regenerados são estranhos à vida de piedade e, portanto, devem estar mortos em seus pecados. Embora eles não se agradem da vida de um homem, ainda se a vida que ele vive não é pela fé no Filho de Deus, ele está espiritualmente morto. Por exemplo, você sabe que um homem morto não sente nada. Faça o que quiser com ele, que ele não sente isto. Assim um homem que é espiritualmente morto não sente o peso de seus pecados, embora eles sejam um fardo pesado pressionando-o para dentro do abismo do inferno. Ele é um estranho à vida de piedade, [havendo] perdido o sentimento, se entregaram um senso de reprovação, assim ele não sente o peso e fardo de todos os seus pecados.  
Um homem morto tem um título de nada aqui nesta vida. Embora ele fosse muito rico, ainda ele perderia este título por fim, e suas riquezas passariam dele para outro. Assim, sendo morto espiritualmente, você não pode exigir nada, nem a graça, nem misericórdia, ou felicidade por Jesus Cristo. Um homem morto ainda está apodrecendo e voltando ao pó de onde veio; e assim, um homem que é morto espiritualmente cai de iniquidade em iniquidade, e de um pecado para outro, até que no fim, cai no fogo do inferno.  

Oito, a última característica de um homem sem Cristo é que ele é um homem condenado. Se ele vive e morre sem Cristo, ele é um homem condenado. Assim diz João 3:18, Aquele que não crê, já está condenado. Ele é certamente condenado como se ele já estivesse no inferno. Aquele que está sem Jesus Cristo deve seguir sem céu, pois o céu e glória e felicidade estão vinculados a Ele. O céu não é dado a ninguém, senão àqueles que são herdeiros juntamente com Cristo, e portanto, você que está sem Cristo deve estar sem o céu, e consequentemente sem felicidade e salvação, e desta forma, você deve ser condenado.  

Assim vocês veem, nestas oito características particulares, em que triste e miserável condição está todo homem sem Cristo, e ó! Que o que tem sido agora anunciado a respeito da desventura de um homem sem Cristo possa provocar cada alma dentre vós para um entusiasmo e sinceridade de espírito, sobre todas as suas buscas para se empenhar para obter a Jesus Cristo. 


[Este sermão foi editado por Don Kistler. O resumo é reimpresso de Sola Scriptura, uma loja formalmente publicada pela Soli Deo Gloria Ministries, com permissão do editor. Para informações adicionais sobre este e outros livros Puritanos, entre em contato com Don Kistler em: Soli Deo Gloria P.O. Box 451 Morgan, PA 15064 (412) 221-1901/ Fax (412) 221-1902]


Sola Scriptura! 
Sola Gratia! 
Sola Fide! 
Solus Christus! 
Soli Deo Gloria!

O Homem e o Pecado - John Piper

quinta-feira, 28 de agosto de 2014


A desobediência fatal de Adão e a obediência triunfante de Cristo

"Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram. "Porque até ao regime da lei havia pecado no mundo, mas o pecado não é levado em conta quando não há lei."Entretanto, reinou a morte desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram, à semelhança da transgressão de Adão, o qual prefigurava aquele que havia de vir. "Todavia, não é assim o dom gratuito como a ofensa, porque, se, pela ofensa de um só, morreram muitos, muito mais a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, foram abundantes sobre muitos. "O dom, entretanto, não é como no caso em que somente um pecou; porque o julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação; mas a graça transcorre de muitas ofensas, para a justificação. "Se, pela ofensa de um e por meio de um só, reinou a morte, muito mais os que recebem a abundância da graça e o dom da justiça reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo. "Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida. "Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos. "Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa, mas, onde abundou o pecado, superabundou a graça, "a fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse a graça pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor." (Romanos 5.12–21)

Jesus é supremo

Jesus Cristo é a pessoa mais importante no universo - não mais importante que Deus, o Pai, ou Deus, o Espírito. Com eles, Cristo é igual em dignidade, perfeição, sabedoria, justiça, amor e poder. Mas ele é mais importante que todas as outras pessoas - sejam anjos ou demônios; reis ou comandantes; cientistas ou artistas; filósofos ou atletas; músicos ou atores - aqueles que vivem agora ou que sempre viveram ou viverão continuamente. Jesus Cristo é supremo.

Todas as coisas são para Jesus - até mesmo o mal

Tudo o que existe - incluindo o mal - é ordenado por um Deus infinitamente santo e totalmente sábio para fazer a glória de Cristo brilhar com mais esplendor. O texto de Provérbios 16.4 diz: "O Senhor fez todas as coisas para determinados fins, até o perverso para o dia da calamidade". Deus faz isso a seu próprio modo misterioso que preserva a responsabilidade do perverso e a impecabilidade de seu próprio coração. As coisas foram feitas por meio de Cristo e "para "Cristo (Colossenses 1.16). E isso inclui, Paulo afirma, os "tronos, soberanias, principados e potestades", que foram derrotados por Cristo na cruz. Eles foram feitos "para o dia da calamidade". E, naquele dia, o poder, a justiça, a ira e o amor de Cristo foram manifestos. Mais cedo ou mais tarde, toda rebelião contra Cristo resulta em ruína.

O Deus que está presente

Tenho a convicção de que o cristianismo não é meramente um conjunto de ideias, práticas e sentimentos designados para nosso bem-estar psicológico - seja ele designado por Deus ou pelo homem. Isso não é Cristianismo. Ele começa com a convicção de que Deus é uma realidade objetiva fora de nós mesmos. Não o tornamos o que ele é por pensar de certa forma com respeito a ele. Conforme Francis Schaefer disse: "O Deus Presente". Não o criamos. Ele é quem nos cria. Não decidimos como ele será. Ele decide que seremos. Deus criou o universo e o universo tem o propósito que Deus concede a ele, não o propósito que nós conferimos a ele. Se lhe dermos um propósito diferente do divino, somos insensatos. E nossas vidas serão trágicas no fim. Cristianismo não é um jogo; não é uma terapia. Todas as suas doutrinas fluem do que Deus é e do que ele faz na história. Elas correspondem aos fatos rigorosos. O cristianismo é mais que fatos. Há a fé, a esperança e o amor. Mas eles não flutuam no ar; crescem como grandes cedros na rocha da verdade de Deus.

Estou profundamente convencido pela Bíblia que nossa alegria, força e santidade eternas dependem da solidez dessa visão de mundo que é colocar fibra forte na espinha dorsal de sua fé. Tímidas visões de mundo produzem cristãos tímidos. E cristãos tímidos não sobreviverão aos dias à frente. Emocionalismo sem raiz que trata o cristianismo como uma opção terapêutica será eliminado nos Últimos Dias. Aqueles que permanecerão firmes serão os que construíram suas casas sobre a rocha da grande verdade objetiva com Jesus Cristo como a origem, o centro, e o propósito de tudo isso.

A glória de Jesus planejada no pecado de Adão

Nosso foco é no pecado extraordinário do primeiro homem, Adão, e como esse pecado preparou o cenário mais extraordinário: a contrainserção de Jesus Cristo. Vamos voltar para Romanos 5.12-21.

Quero focar na glória de Cristo como o principal propósito que Deus teve em mente quando planejou e permitiu o pecado de Adão e com ele a queda de toda a humanidade no pecado. A Palavra diz: "Seja o que Deus permitir, ele o faz por uma razão". E suas razões são sempre infinitamente sábias e propositais. Ele não tinha obrigação de permitir que a Queda ocorresse. Ele poderia tê-la impedido, assim como teria evitado a queda de Satanás. O fato de que Deus não a impediu significa que ele tem uma razão, um propósito para ela. E ele não faz seus planos enquanto acontece alguma atividade. Ele sabe o que é sábio, sempre sabe o que é sábio. Portanto, o pecado de Adão e a queda da raça humana com ele no pecado e miséria não encontraram Deus desprevenido e é parte de seu plano abrangente para manifestar a plenitude da glória de Jesus Cristo.

Uma das formas mais claras de demonstrar isso na Bíblia - e não vamos entrar em detalhes sobre esse assunto aqui - é examinar aquelas passagens onde o sacrifício de Cristo que vence o pecado é exposto como estando na mente de Deus antes da criação do mundo. Por exemplo, em Apocalipse 13.8, João escreve sobre "aqueles cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo". Assim, havia um livro antes da fundação do mundo chamado "O Livro da Vida do Cordeiro que foi morto. Antes que o mundo fosse criado, Deus já havia planejado que seu Filho seria morto como um cordeiro para salvar todos aqueles que estão escritos no livro. Poderíamos examinar muitos outros textos como estes (Ef 1.4-5; 2Tm 1.9; Tt 1.1-2; 1Pd 1.20) para perceber a visão bíblica de que os sofrimentos e a morte de Cristo pelo pecado não são planejados depois do pecado de Adão, mas antes. Portanto, quando o pecado de Adão acontece, Deus não é surpreendido por ele, mas já o tornou parte de seu plano, o plano de manifestar sua paciência, graça, justiça e ira maravilhosas na história da redenção, e, então, em um clímax, revelar a magnificência de seu Filho como o segundo Adão, superior por todos os modos ao primeiro Adão.

Assim, examinamos Romanos 5.12-21 desta vez tendo em mente que o pecado extraordinário de Adão não frustrou os propósitos de Deus de exaltar a Cristo, mas, pelo contrário, os serviu. Aqui está o modo como examinaremos esses versículos. Há cinco referências explícitas a Cristo. Uma delas estabelece o modo como Paulo pensa no que se refere a Cristo e Adão. E o restante mostra como Cristo é superior a Adão. Dois desses versículos são tão similares que os uniremos. Significa que examinaremos três aspectos da superioridade de Cristo.

Jesus, "aquele que vem"

Assim, vamos examinar a forma como Cristo é referido no versículo 14 e vamos ler os versículos 12 e 13 para o contexto: "12"Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram."13" Porque até ao regime da lei havia pecado no mundo, mas o pecado não é levado em conta quando não há lei."14"Entretanto, reinou a morte desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram, à semelhança da transgressão de Adão, o qual prefigurava aquele que havia de vir". Há a referência a Cristo: "Aquele que havia de vir".

O versículo 14 apresenta o modo como Paulo reflete o restante da passagem. Adão é chamado um "tipo" daquele que viria, isto é, um tipo de Cristo. Note o fato mais óbvio primeiramente: Cristo "viria". Desde o princípio, Cristo era "aquele que viria". Paulo mostra que Cristo não é uma ideia tardia. Paulo não diz que Cristo foi concebido como uma cópia de Adão. Ele afirma que Adão foi um tipo de Cristo. Deus tratou Adão de uma maneira que faria dele um tipo da forma que ele planejou para glorificar seu Filho. Um tipo é uma prefiguração de algo que viria mais tarde e seria semelhante ao tipo - somente superior. Por conseguinte, Deus tratou com Adão de uma maneira que o faria um tipo de Cristo.

Agora, observe com mais rigor, exatamente onde, na fluência de seu pensamento, Paulo decide dizer que Adão é um tipo de Cristo. O versículo 14: "Entretanto, reinou a morte desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram, à semelhança da transgressão de Adão, o qual prefigurava aquele que havia de vir". Ele decide nos dizer que Adão é um tipo de Cristo no momento após afirmar que as pessoas que não pecaram como Adão o fez ainda sofrem a punição que Adão sofreu. Por que Paulo, justamente nesse ponto, declara que Adão foi um tipo de Cristo?

Jesus, nosso representante

O argumento de Paulo demonstra a essência de como Cristo e Adão são semelhantes e diferentes. Eis o paralelo: as pessoas cujas transgressões não foram iguais as de Adão morreram como Adão. Por quê? Porque estavam ligados a Adão. Ele foi o representante da humanidade e seu pecado é considerado deles devido à conexão deles com Adão. Essa é a essência do porquê Adão é chamado um tipo de Cristo - pois nossa obediência não é igual à obediência de Cristo e, contudo, temos vida eterna com Cristo. Por quê? Porque somos unidos a Cristo pela fé. Ele é o representante da nova humanidade e sua justiça é considerada nossa justiça pela nossa união com ele (Confira Romanos 6.5).

Há um paralelo inferido em chamar Adão de um tipo de Cristo:

Adão > pecado de Adão > humanidade condenada nele > morte eterna

Cristo > justiça de Cristo > nova humanidade justificada nele > vida eterna

O restante da passagem revela o quanto Cristo e sua obra redentora são superiores a Adão e sua obra destrutiva. Tenha em mente o que disse no princípio. O que vemos aqui é a revelação das realidades que definem o mundo onde toda pessoa neste planeta vive. Todos neste planeta estão inclusos no texto porque Adão foi o pai de todos. Portanto, toda pessoa que você encontrar na América ou em qualquer país de qualquer etnia se defronta com o que esse texto fala. Morte em Adão ou vida em Cristo. É um texto universal. Não perca isso de vista. Ele é a realidade definidora para cada pessoa que você sempre encontrará. Tímidas visões de mundo produzem cristãos tímidos. Essa não é uma visão de mundo tímida. Ela se estende por toda a história e por toda a terra. Ela influencia cada pessoa no mundo e a cada manchete na internet.

A celebração da superioridade de Jesus

Vamos agora examinar três modos como Paulo celebra a superioridade de Cristo e a obra dele sobre Adão e sua obra. Eles podem ser resumidos sob três frases: 1) a abundância da graça, 2) a perfeição da obediência, e 3) o reino da vida.

1)  A abundância da graça

Primeiro, o versículo 15 e a abundância da graça. "Todavia, não é assim o dom gratuito [a saber, o dom gratuito da justiça v. 17] como a ofensa, porque, se, pela ofensa de um só, morreram muitos, muito mais a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, foram abundantes sobre muitos". O ponto aqui é que a graça de Deus é mais poderosa que a ofensa de Adão. É isso que as palavras "muito mais" significam: "muito mais a graça de Deus… foram abundantes sobre muitos". Se a ofensa do homem trouxe morte, muito mais a graça de Deus trará vida.

Mas Paulo é mais específico que isso. A graça de Deus é especificamente "a graça de um só homem, Jesus Cristo". "Muito mais a graça de Deus e o dom "pela graça de um só homem, Jesus Cristo, foram abundantes sobre muitos". Essas graças não são duas graças diferentes. "A graça de um só homem, Jesus Cristo" é a encarnação da graça de Deus. Essa é a forma com a qual Paulo fala sobre ela, por exemplo em Tito 2.11: "A graça de Deus se manifestou [a saber em Jesus] salvadora...". E em 2 Timóteo 1.9: "Sua própria... graça, que nos foi dada em Cristo Jesus". Por conseguinte, a graça que está em Jesus é a graça de Deus.

Essa graça é a soberana graça. Ela conquista tudo em seu caminho. Veremos em um momento que ela tem o poder do rei do universo. É a graça imperial. Essa é a primeira celebração da superioridade de Cristo sobre Adão. Quando a ofensa de um só homem, Adão, e a graça de um só homem, Jesus Cristo, se encontram, Adão e a ofensa perdem. Cristo e a graça vencem. São as boas-novas para aqueles que pertencem a Cristo.

2) A perfeição da obediência

Segundo, Paulo celebra a forma pela qual a graça de Cristo vence a ofensa de Adão e a morte, a saber, a perfeição da obediência de Cristo. O versículo 19: "Porque, como, pela desobediência [a saber, de Adão] de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência [isto é, a de Cristo] de um só, muitos se tornarão justos". Assim, a graça de um só homem, Jesus Cristo, o impede de pecar - ela o mantém obediente até à morte e morte de cruz (Fp 2.8) - de modo que ele oferece uma obediência perfeita e completa ao Pai em nome daqueles que estão unidos com ele pela fé. Adão fracassou em sua obediência. Cristo procedeu perfeitamente. Adão foi a fonte de pecado e morte. Cristo foi a fonte de obediência e vida.

Cristo é como Adão, que foi um tipo de Cristo - ambos são representantes de uma velha e uma nova humanidade. Deus imputa o fracasso de Adão à sua humanidade e o sucesso de Cristo à sua humanidade, devido a como essas duas humanidades estão unidas às suas respectivas cabeças. A sublime superioridade de Cristo é que ele não é apenas bem-sucedido em obedecer perfeitamente, mas o faz de tal forma que milhões de pessoas são consideradas justas pela sua obediência. Você está unido somente a Adão? Você está unido à parte da primeira humanidade destinada à morte? Ou você também está unido a Cristo e à parte da nova humanidade destinada à vida eterna?

3) O reino da vida

Terceiro, Paulo celebra não apenas a graça abundante de Cristo e a obediência perfeita de Cristo, mas finalmente, o reino da vida. A graça conduz à obediência de Cristo rumo ao triunfo da vida eterna. O versículo 21: "A fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse a graça pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor". A graça reina por meio da justiça (isto é, mediante a justiça perfeita de Cristo) para o grande clímax da vida eterna - e tudo isso é "mediante Jesus Cristo, nosso Senhor".

Ou, uma vez mais no versículo 17, a mesma mensagem: "Se, pela ofensa de um e por meio de um só, reinou a morte, muito mais os que recebem a abundância da graça e o dom da justiça reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo". O mesmo padrão: graça por meio do dom gratuito de justiça conduz ao triunfo da vida e tudo isso acontece mediante Jesus Cristo.

Mencionei anteriormente que a graça de Deus em Cristo, a que Paulo faz alusão nesses versículos, é a soberana graça. Eis o termo onde se percebe esse fato, a saber, na palavra "reinar. A morte tem um tipo de soberania sobre o homem e reina sobre tudo. Todos morrem. Mas a graça vence o pecado e a morte. Ela reina em vida mesmo sobre aqueles que outrora estavam mortos. É graça soberana.

A obediência extraordinária de Jesus

Esta é a grande glória de Cristo - ele ultrapassa imensamente em excelência o primeiro Adão. O pecado extraordinário de Adão não é tão maior quanto a graça e a obediência extraordinárias de Cristo e o dom da vida eterna. De fato, o plano de Deus, desde o princípio, em sua justiça perfeita, foi que Adão, como o representante da humanidade, seria um tipo de Cristo como o representante de uma nova humanidade. Seu plano foi por comparação e contraste que a glória de Cristo brilharia com mais esplendor.

O versículo 17 expressa o assunto para você de uma forma muito pessoal e muito urgente. Onde você se situa? "Se, pela ofensa de um e por meio de um só, reinou a morte, muito mais os que recebem "a abundância da graça e o dom da justiça "reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo". Note as palavras muito cuidadosamente e pessoalmente: "Os que recebem a abundância da graça e o dom da justiça".

Palavras preciosas para pecadores

Estas são palavras preciosas para pecadores: a graça é gratuita, o dom é gratuito, a justiça de Cristo é gratuita. Vocês receberão tudo isso como a esperança e o tesouro de suas vidas? Se receberem, vocês "reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo". Recebam isso agora. Testemunhem isso no batismo. E tornem-se uma parte viva do povo de Cristo.



Sola Scriptura! 
Sola Gratia! 
Sola Fide! 
Solus Christus! 
Soli Deo Gloria!

           
EU SOU CALVINISTA: PREGANDO E ENSINANDO A PALAVRA DO NOSSO SENHOR JESUS!!