Eleição - João Calvino

quarta-feira, 2 de julho de 2014

 “Que nos salvou e nos chamou com santo chamado; não segundo as nossas obras, mas conforme seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos, e manifestada, agora, pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus, o qual não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho” 

2 Timóteo 1:9-10

 
Mostramos esta manhã, de acordo com o texto de Paulo, que se quisermos conhecer a livre misericórdia de nosso Deus em nos salvar, temos de ir até o Seu conselho eterno, pelo qual Ele nos escolheu antes da fundação do mundo. Disso vemos que Ele não considerou nossas pessoas, nem a nossa dignidade, nem qualquer mérito que poderíamos possivelmente possuir. Antes de nascermos, fomos arrolados em Seu registro. Ele já havia nos adotado por Seus filhos. Portanto, vamos conceder tudo a Sua misericórdia, sabendo que não podemos nos orgulhar de nós mesmos, a não ser que venhamos furtar Dele a honra que lhe pertence.  
 
Os homens têm se esforçado em inventar sofismas para obscurecer a graça de Deus. Porque eles dizem que, apesar de Deus escolher os homens antes do início do mundo, ainda assim foi de acordo com sua presciência que um seria diferente do outro. As Escrituras demonstram claramente que Deus não esperou ver se os homens eram dignos ou não, quando Ele os escolheu, mas os sofistas pensam que podem obscurecer a graça de Deus, dizendo que embora Ele não tenha considerado os méritos passados, Ele tinha um olho naqueles que estavam por vir. Pois dizem eles que embora Jacó e seu irmão Esaú não tivessem feito nem o bem nem o mal, e Deus tenha escolhido um e recusado a outro, ainda assim Ele previu – como todas as coisas são presentes para Ele – que Esaú seria um homem vicioso, e que Jacó seria como se mostrou posteriormente.  
 
Mas essas são especulações tolas, porque elas simplesmente fazem de Paulo um mentiroso; os quais dizem que Deus não recompensa nossas obras quando Ele nos escolhe, porque Ele fez isso antes do início do mundo. Porém, embora a autoridade de Paulo fosse abolida, ainda assim a questão é muito clara e evidente, não só nas Sagradas Escrituras, mas também na razão, de modo que aqueles que fazem um escape desse tipo, se mostram homens vazios de toda a habilidade. Porque se buscarmos em nós mesmos ao fundo, o que podemos Encontrar de bom? Não foi toda a humanidade amaldiçoada? O que trazemos do ventre de nossa mãe, a não ser pecado?  
 
Portanto, não diferimos nem um pouco uns dos outros, mas apraz a Deus tomar para Si aqueles que Ele quer. E por esse motivo, Paulo usa estas palavras em outro lugar, quando diz que os homens não têm do que se regozijar, pois nenhum homem se encontra melhor do que seus companheiros, a não ser porque Deus o distingue. Então, se confessarmos que Deus nos escolheu antes do início do mundo, segue-se necessariamente que Deus nos preparou para receber a Sua graça. Porque Ele concedeu sobre nós a bondade, que não estava em nós anteriormente. Porque Ele nos escolheu para sermos herdeiros do reino dos céus, mas também nos justifica e nos governa pelo Seu Espírito Santo. O cristão deve ser muito bem resolvido nesta doutrina, estando além de qualquer dúvida.  
 
Há alguns homens nestes dias, que ficariam felizes se a verdade de Deus fosse destruída. Tais homens lutam contra o Espírito Santo, como bestas loucas, e se esforçam por suprimir as Sagradas Escrituras. Há mais honestidade nos papistas, do que nesses homens. Porque a doutrina dos papistas é muito melhor, mais santa, e concorda mais com as Escrituras Sagradas, do que a doutrina desses homens vis e perversos, os quais abatem a santa eleição de Deus; esses cães que latem para ela, e porcos que a dilaceram. 
 
No entanto, sustentemos firmemente o que aqui nos é ensinado: Deus tendo no escolhido antes do mundo ter seu início, devemos atribuir a causa da nossa salvação à Sua livre bondade. Devemos confessar que Ele não nos toma para sermos Seus filhos, por qualquer mérito de nós mesmos, pois não tínhamos nada para nos recomendar à seu favor. Portanto, devemos colocar a causa e a fonte da nossa salvação somente Nele e fundamentar a nós mesmos sobre isso, caso contrário, tudo que construirmos, virá a ser nada. 
 
Devemos reparar aqui o que Paulo conecta, a saber, a graça de Jesus Cristo, com o conselho eterno de Deus Pai, e então ele nos traz nosso chamado, para que nós possamos ter a certeza da bondade de Deus e da Sua vontade, que teria permanecida oculta de nós, a menos que tivéssemos um testemunho disso. Paulo diz em primeiro lugar, que a graça que repousa sobre o propósito de Deus, e que é compreendida nele, é dada em nosso Senhor Jesus Cristo. Como se dissesse: “Vendo que nós merecemos ser rejeitados e odiados como inimigos mortais de Deus, era preciso que fossemos enxertados, por assim dizer, em Jesus Cristo, para que Deus pudesse nos conceder e nos reconhecer como sendo Seus filhos. Caso contrário, Deus não poderia olhar para nós, a não ser para nos odiar, porque não há nada senão miséria em nós; estamos cheios de pecado, e estufados, por assim dizer, com todos os tipos de iniquidade”.  
 
Deus, que é a própria justiça, não pode consentir conosco, enquanto considera nossa natureza pecaminosa. Portanto, quando Ele quis nos adotar antes do Início do mundo, foi requisitado que Jesus Cristo fosse colocado entre nós e Ele, para que fossemos escolhidos em Sua pessoa, pois Ele é o Filho mui amado: quando Deus nos uniu a Ele, fez como Lhe aprouve. Vamos aprender a ir diretamente a Jesus Cristo se nós quisermos não duvidar da eleição de Deus: porque Ele é o verdadeiro espelho onde devemos contemplar nossa adoção.

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Trecho retirado do sermão Eleição por João Calvino.

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EU SOU CALVINISTA: PREGANDO E ENSINANDO A PALAVRA DO NOSSO SENHOR JESUS!!