Talvez alguns de nossos leitores mais jovens e mais impacientes estejam inclinados a objetar: “Por que dedicar um capítulo especial para isso? Nós já sabemos tudo sobre isso: o remédio para o homem arruinado encontra-se na salvação de Deus”. Mas isso é uma visão muito superficial a tomar, e uma visão injusta também; pois a maior e mais grandiosa de todas as obras maravilhosas de Deus nunca deve ser falada de forma tão banal e desprezada tão superficialmente. Além disso, a questão está muito longe de ser tão simples quanto isso, e uma vez que há essa ignorância generalizada sobre a doença em si, é necessário examinar de perto e entrar em alguns detalhes sobre a descrição da cura para a mesma. O fato precisa ser profundamente percebido desde o início para toda perspicácia natural, que a condição do homem natural e caído está além do reparo, de forma que enquanto a autoajuda ou habilidade humana é considerada, o seu caso é sem esperança. Sim, nenhum outro além do próprio Filho de Deus declarou: “Aos homens isso é impossível” (Mateus 19:26), e isto é apenas como nós percebemos, em alguma mínima extensão, os vários aspectos em que essa impossibilidade baseia-se, para que possamos começar a apreciar o milagre da graça que assegura a recuperação dos pecadores perdidos.  

A doença mortal que se apoderou do homem não é algo simples, mas complexo, não consistindo de um único elemento, mas de uma combinação destes, cada um dos quais é fatal em si mesmo. Olhem para alguns deles. A própria natureza do homem é totalmente corrompida, mas ele não é sensato, e nem fica horrorizado por causa disso. O pecado não é apenas parte integrante do seu ser, mas ele é profundamente apaixonado por ele. Ele está cheio de inimizade contra Deus, e seu coração é tão duro quanto uma pedra. Ele está totalmente paralisado para ir a Deus, e completamente sob o domínio e influência de Satanás. Ele não somente está desprovido de justiça, mas é um pecador culpado sem uma centelha de santidade, um leproso moral. Ele é completamente incapaz de ajudar a si mesmo, pois ele está “fraco” (Romanos 5:6). A ira de Deus permanece sobre ele, e ele está morto em delitos e pecados. O homem caído não está apenas em perigo de ruína e destruição, mas já está afundado na mesma. Ele é como um tição próximo uma fogueira intensa, que rapidamente será consumido a menos que a mão Divina o arranque dali (Zacarias 3:2). Sua condição não é apenas infeliz, mas desesperada, na medida em que ele é totalmente incapaz de conceber qualquer expediente para a sua cura.  

O pecador é culpado, e nenhuma criatura pode fazer expiação por ele. Ele é um pária de Deus, aterrorizado por Suas próprias perfeições, e, portanto, faz o possível para bani-lo de seus pensamentos. Nenhuma língua pode expressar ou coração é adequadamente afetado com a situação lamentável e abjeta miséria do homem natural. E tal será o seu caso para sempre a menos que Deus intervenha. No entanto, tudo isso representa apenas um lado do problema – e o menos ruim – isto é, que mesmo assim ele permanecer no caminho onde o homem ainda pode ser recuperado. Para a inteligência finita pareceria que uma criatura tão vil e contaminada, tão desobediente e rebelde, tão desagradável à justa maldição da Lei, está além de toda esperança, e que não seria incompatível à honra Divina salvar tal verme. Como um transgressor pode ser perdoado de forma coerente com os requisitos daquela Lei que ele desprezou e ignorou, e ser liberto da penalidade que ela justamente demanda, e como ele poderia ser recuperado até o favor de Deus em concórdia com a manutenção do governo Divino, apresentou-se uma dificuldade que nenhuma sabedoria angelical poderia resolver. Este foi um segredo escondido em Deus até que Ele teve o prazer de fazê-lo conhecido.  

Há aqueles, sem consideração com a Palavra da Verdade, que supõem ao fato de que Deus deve perdoar e receber em favor aqueles que renunciam às armas de sua rebelião contra Ele e pedem misericórdia. Mas a solução para o problema está longe de ser tão simples quanto uma questão como esta. Encontrando essas pessoas em seu próprio terreno, deve ser salientado que a razão humana não pode promover nenhum argumento válido e suficiente pelo qual Deus deveria perdoar o pecador somente porque ele se arrepende, ou que isso poderia ser feito de forma consistente com o Seu governo moral. Em vez disso, o contrário é evidente. A contrição de um criminoso não o exonerará em um tribunal humano de direito, pois isso não oferece nenhuma satisfação e reparação por seus crimes. Qualquer pecador que acalenta a ideia de que seu arrependimento lhe oferece uma reivindicação de clemência e favor Divinos demonstra que ele é um estranho ao verdadeiro arrependimento; e nunca se arrependerá até que ele abandone tal presunção. A experiência e observação universais, bem como a Escritura, atestam plenamente o fato de que nenhum dos homens jamais se arrepende enquanto é deixado a si mesmo, e não são feitos os sujeitos daquelas operações Divinas para as quais eles não têm nenhuma reivindicação, e que a mera razão é incapaz de concluir que Deus lhes concederá.  

Que um adequado remédio para a doença complexa e fatal pela qual o homem está atingido deve ser de Deus é muito óbvio; é necessário que seja da Sua concepção, Sua providência, Sua aplicação, Sua realização eficaz do mesmo. Isso é apenas outra manei- ra de dizer que isso deve ser inteiramente dEle do início ao fim, pois se qualquer parte disso for deixado para o pecador, em qualquer fase, a falha é certa. Ainda assim, é necessário ser destacado mais uma vez que Deus não tinha obrigação alguma de efetuar tal disposição, pois quando o homem deliberadamente apostatou dEle, perdeu toda recompensa favorável do seu Criador. Não somente Deus poderia agora justamente infligir a pena total de Sua Lei violada sobre toda a raça humana, mas, de acordo com a Sua santa natureza, Ele poderia ter deixado toda a humanidade perecer eternamente naquela condenação em que eles mesmos haviam se lançado. Se Ele inteiramente abandonasse toda a posteridade do apóstata Adão e os deixasse como os anjos irremediavelmente caídos, isso não teria qualquer repercussão sobre a Sua bondade, mas sim uma demonstração de Sua inexorável justiça. Portanto, sempre que a redenção é mencionada, ela é constantemente descrita como procedente da graça soberana e pura misericórdia (Efésios 1:3-11).  

No entanto, algo mais do que um desígnio gracioso foi exigido da parte de Deus a fim de que qualquer pecador fosse salvo. A graça é de fato a fonte disso, ainda assim, ela não foi suficiente em si mesma. Alguém pode ser preenchido com as intenções mais amáveis, mas ser incapaz de realizá-las. Quão frequentemente o terno amor de uma mãe impo- tente está na presença de seu filho em sofrimento! Deve haver também a aplicação de poder Divino se o propósito da graça deve ser cumprido. E não qualquer poder ordinário, mas, como a Escritura afirma: “a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder” (Efésios 1:19). Demanda o exercício de muito mais força para recriar uma criatura caída do que é demandado para criar o universo a partir do nada. Por que isso? Porque nisto não havia oposição, nada para resistir à Sua obra; enquanto no caso do homem caído, há a hostilidade de sua vontade, a alienação de seu coração, a inimizade inveterada de sua mente carnal a serem superadas. Além disso, há a malícia e a oposição de Satanás a serem neutralizadas, pois ele se esforça com todas as suas forças para manter o seu domínio sobre suas vítimas. O Diabo deve ser despojado da vantagem que ele tinha obtido, pois não é consistente com a glória de Deus, que lhe seja permitido triunfar em seu sucesso.  

Porém, algo mais do que o exercício do poder de Deus ainda era necessário: a onisciência deve ser exercida, bem como onipotência. A força em si mesma não construirá uma casa: deve haver também a arte de planejar e harmonizar os materiais. A habilidade é o principal requisito de um arquiteto. Permitam fracamente ilustrar o que procuramos expressar aqui. Aqueles que são salvos não são apenas os produtos da maravilhosa graça de Deus e poder onipotente, mas eles também são “feitura Sua” (Efésios 2:10). Maravilhosamente a sabedoria de Deus aparece no belo tecido de Sua graça, no templo espiritual que Ele ergue para a Sua própria morada. Ele “para isto mesmo nos preparou” (2 Coríntios 5:5); como as pedras são esculpidas e polidas, assim os crentes são “pedras vivas” nesse edifício em que Deus habitará para sempre. Ora, o que é excelente na execução serve para fazer manifesta a excelente habilidade no planejamento da mesma. A contrapartida da Lei de Deus nos corações dos Seus filhos vivificados não é menos o fruto de Sua sabedoria do que ela escrita em tábuas de pedra: sabedoria na primeira formação disso, sabedoria também na impressão dela sobre a compreensão e as afeições.  

Não é nem nas maravilhas da criação, nem nos mistérios da Providência que as profundidades e riquezas da sabedoria de Deus devem ser encontradas: antes, é no plano e frutos da redenção que elas são mais plena e ilustrativamente reveladas. Isso fica claro a partir de várias Escrituras. É no Mediador Deus-Homem “em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Colossenses 2:3): Sim, Ele é expressamente denominado “sabedoria de Deus” (1 Coríntios 1:24). Aos “principados e potestades nos céus” agora está sendo manifesta, por meios, “pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus” (Efésios 3:10). A elaboração de um método pelo qual uma parte da humanidade deve ser resgatada de sua condição miserável é de fato a obra-prima da sabedoria Divina: nada, senão a própria onisciência poderia ter encontrado uma maneira de efetuar tal triunfo de uma forma adequada para todas as perfeições Divinas. Os sábios deste mundo são chamados de “príncipes” (1 Coríntios. 2:6, 8), mas os anjos são designados “principados e potestades nos lugares celestiais”, por causa de sua dignidade, sabedoria e força superiores. No entanto, apesar de serem tão grandes em inteligência, sempre contemplando a face do Pai, ainda assim, uma nova e grandiosa descoberta da sabedoria de Deus é feita a eles por meio da Igreja, pois a Sua obra na redenção dela transcende em muito a compreensão natural deles. 

As hierarquias celestes testemunharam a desonra que havia sido feito à autoridade de Deus e a discórdia trazida para a esfera de Seu governo pelo pecado e rebelião de Adão. Era, portanto, necessário, moralmente falando, que esse desafio ao governo de Deus fosse tratado, e que essa afronta ao Seu trono fosse corrigida. Isso não poderia ser feito a não ser pela imposição daquela punição que na regra inalterável e padrão de justiça Divina era devida para isso. A tolerância do pecado em quaisquer outros termos deixaria o governo de Deus em indizível desonra e confusão. “Porque, onde está a justiça do governo se o maior pecado e provocação que a nossa natureza era capaz de praticar, e que trouxe confusão sobre toda a criação, ficasse para sempre impune? A primeira intimação expressa que Deus deu de Sua justiça no governo da humanidade foi a Sua ameaçadora punição equivalente ao demérito da desobediência em que o homem poderia cair: „no dia em que dela comeres, certamente morrerás‟ [Gênesis 2:17]. Se Ele revogasse e invalidasse está sentença, como a glória de Sua justiça no governo de tudo será conhecida? Mas como essa punição deveria ser sofrida, a qual consistia na ruína eterna do homem, e ainda assim o homem ser salvo eternamente, foi uma obra para a sabedoria Divina idealizar” (John Owen).  

Não apenas era necessário à honra da justiça de Deus, sendo Ele o Governador moral e Juiz supremo de toda a terra, que o pecado fosse sumariamente punido, mas foi necessário que houvesse uma obediência a Deus, e tal obediência como que traria mais glória a Ele do que a desonra e opróbrio que resultou da desobediência do homem. “Isto foi devido à glória da Sua santidade ao dar a Lei. Até isso foi feito, a excelência daquela Lei como sendo a santidade de Deus, e como um efeito disso, não poderia ser feita manifesta. Pois, se esta nunca fosse mantida em qualquer instância, nunca cumprida por qualquer pessoa no mundo, como a glória dela seria declarada? Como a santidade de Deus seria representada por ela? Como seria evidente que a transgressão não era antes algum defeito na própria Lei, do que de qualquer mal naqueles que deveriam ter rendido obediência a ela? Se a Lei dada ao homem nunca fosse cumprida, sobretudo, em perfeita obediência por qualquer um que seja, poderia ser pensado que a própria Lei não era adequada à nossa natureza, e impossível de ser assim cumprida” (John Owen). Ele não se tornou o Reitor do universo para dar ao homem uma lei cuja espiritualidade e equidade nunca pudesse ser exemplificada em obediência. Essa Lei não foi imposta, principal- mente, para que o homem sofresse justamente por sua transgressão, mas sim para que Deus fosse glorificado em seu desempenho. Mas, desde que a ofensa de Adão trouxe ruína sobre toda a sua posteridade, de forma que eles são incapazes de responder às suas demandas, como poderia uma perfeita obediência ser prestada a ela? Somente a onisciência poderia fornecer a resposta. 

Oh, que coisa verdadeiramente surpreendente é, leitor cristão, que a sabedoria de Deus, por meio de nossa redenção, fez daquilo que é a maior desonra possível a Ele tornar-se a ocasião de Sua maior glória! Ainda assim, tal é verdadeiramente o caso. Nada é tão desagradável ao Altíssimo quanto o pecado, nada desonra tanto a Ele, pois isto é em sua própria natureza inimizade contra Deus, desprezo a Ele. O pecado é uma vergonha à Sua majestade, um insulto à Sua santidade, uma insurreição contra o Seu governo. E, no entanto está “coisa abominável”, que Ele odeia (Jeremias 44:4), para a qual Ele não pode olhar, senão com infinito desfavor (Habacuque 1:13), é feita por ocasião do maior bem possível. Que milagre dos milagres é que o Senhor faça a ira do homem louvá-lo (Salmos 76:10), que o próprio mal que visa destronar a Ele transmute-se em meios de magnificação dEle; sim, pois, assim Ele fez a grandiosa manifestação de Suas perfeições que sempre existiram. O pecado lança desprezo sobre a Lei de Deus, no entanto, por meio da redenção, aquela Lei é extremamente honrada. Nunca o Rei do Céu foi tão gravemente menosprezado como quando aqueles feitos à Sua imagem e semelhança irromperam em revolta contra Ele; nunca tal honra foi prestada ao Seu trono, como pela forma com a qual Ele escolheu efetuar a salvação de Seu povo. Nunca a santidade de Deus foi tão menosprezada como quando o homem preferiu prestar lealdade à antiga serpente, o Diabo; nunca a santidade de Deus brilhou tão rutilantemente como na vitória que Ele obteve sobre Satanás. 

Igualmente maravilhoso é, leitor cristão, que Deus planejou uma maneira pela qual um transgressor flagrante deve tornar-se inocente, e que aquele que é completamente destituído de justiça seja justificado ou declarado justo pelo Juiz de toda a terra. Houvesse coisas como estas sido submetidas à solução, elas sempre pareceriam ser contradições irreconciliáveis para todas as compreensões finitas. Parece ser absolutamente impossível para um culpado condenado o ser inocentado de qualquer acusação contra ele. O pecado implica necessariamente em punição, como pode, então, qualquer transgressor fugir da “devida recompensa” de suas obras (Lucas 23:41), exceto por uma manifesta violação da justiça? Deus declarou claramente que Ele “não inocenta o culpado” (Êxodo 34:7). Ele tem determinado por um decreto inalterável de que o pecado deve ter a paga de seus salários; então como pode o culpado ser isentos da sentença de morte? Nem é menos formidável o problema de como Deus pode, com equidade perfeita, declarar justos aqueles que não têm cumprido as exigências da Lei. Conceder a declaração de obediência àquele cujo registro é de desobediência ao longo da vida parece ser algo pior do que uma anomalia. No entanto, a Onisciência planejou uma solução para ambos os problemas, uma solução que é, em todos os aspectos, uma solução perfeita e gloriosa.  

Sem essa solução, a restauração de qualquer um da humanidade no favor e na comunhão e gozo do próprio Deus seria totalmente impossível. Isso seria assim não somente por causa da própria depravação total do homem, mas por causa da relevância da glória das perfeições Divinas em nosso pecado e apostasia. Eles não somente estavam acometidos de uma doença fatal, da qual não havia a menor esperança de libertação, a menos que fosse fornecido um remédio sobrenatural, mas o governo de Deus estava tão gravemente indignado com nossa revolta, que a compensação integral deveria ser feita ao Seu cetro insultado, e a completa satisfação oferecida à Sua Lei violada, para que o trono do Céu pudesse ser satisfeito. Muito além da concepção da inteligência finita como foi a dificuldade de reparar os danos causados em toda a nossa constituição e ser pelo pecado, ainda mais longe estavam os obstáculos que permaneciam no caminho do exercício da graça e da misericórdia de Deus na restauração do pária. Essa maneira de restauração deve ser algo no qual Deus seja magnificado, Sua justiça vindicada, Suas ameaças cumpridas e Sua santidade glorificada. A maneira pela qual todos esses fins foram alcançados e esses resultados garantidos é a maravilha adorada, semelhante- mente, pelos redimidos e pelos anjos.  

Como outros antes de nós têm apontado, se o governo Divino fosse vindicado, toda a obra do nosso resgate deveria ser realizada em nossa natureza, e a própria natureza daqueles que pecaram, e que viriam a ser recuperados desde as ruínas da Queda e trazidos à felicidade eterna: a partir da natureza humana, mas está teria que ser não somente livre de qualquer contaminação, mas intrinsecamente santa. Quanto à salvação de pecadores, nenhuma satisfação poderia ser feita para a glória de Deus, devido, à depravação da natureza apóstata do homem e todos os frutos malignos desta, contudo deveria ser por uma natureza igual à daqueles que pecaram e deveriam ser salvos. A entrega da Lei por Deus aos nossos primeiros pais foi por si só um efeito de Sua sabedoria e santidade, em que a glória delas seria exaltada, se essa regra de justiça fosse cumprida por uma natureza de um tipo totalmente diferente? Se um anjo a cumprisse, a sua obediência não seria nenhuma prova de que a Lei era adequada à natureza do homem, para a qual ela foi originalmente prescrita; antes, poderia um cumprimento angelical da Lei ter sido um reflexo da bondade Divina em concedê-la aos homens. Nem poderia ter havido a necessária relação entre a natureza do substituto e aqueles em nome de quem o substituto agiu e sofreu, e, portanto, tal arranjo não teria magnificado a sabedoria Divina, antes teria sido, na melhor das hipóteses, uma obra insatisfatória.  

As Escrituras são muito explícitas em seu ensino sobre a necessidade da natureza ser a mesma entre o fiador e aqueles a quem ele representava, como sendo condescendente à sabedoria de Deus. Falando sobre a forma de nosso auxílio, o Apóstolo declarou: “E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele [o Resgatador] participou das mesmas coisas” (Hebreus 2:14). A natureza humana foi aqui expressa por: “da carne e do sangue”, que deveria ser liberta, e, portanto, era em natureza humana que está libertação deveria ser feita. O Apóstolo entra em detalhes consideráveis sobre este ponto em Romanos 5:12-21, a soma disso é: “se pela ofensa de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos” [v.15]. A mesma natureza que transgrediu deve operar o remédio para a mesma. Mais uma vez, em 1 Coríntios 15:21: “Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem”. A nossa ruína não poderia ser recuperada, nem a libertação de nossa culpa ser efetuada, exceto por alguém em nossa própria natureza. 

Além disso, deve ser observado que a libertação para ser assegurada deve ser feita por alguém cuja substância foi derivada de nossos primeiros pais. Não havia encontrado as exigências do caso para que Deus criasse um segundo homem do pó da terra, ou de qualquer coisa que seria de natureza diferente de nós mesmos, pois, nesse caso, não haveria nexo e relação entre ele e nós, e, portanto, não teríamos, de modo algum, uma participação em qualquer coisa que ele fizesse ou sofresse. Essa aliança dependia apenas disso, que Deus “de um só sangue fez toda a geração dos homens” (Atos 17:26). Todavia, neste momento uma dificuldade adicional foi apresentada, uma que outra vez se provava insuperável a todas as inteligências criadas, não houvesse “o único Deus sábio” revelado a Sua provisão para a resolução da mesma. Qualquer libertador de homens pecadores deveria derivar sua natureza de suas ações originais, mas ele não deveria trazer junto com ele a menor mácula de corrupção ou a mesma responsabilidade, que temos em nossa própria conta, pois, se a sua natureza se contaminasse, se ela carecesse da imagem de Deus, ele não poderia fazer nada que fosse aceitável a Deus, e ele estaria sujeito à penalidade da Lei por conta própria, então ele não poderia fazer nenhuma satisfação pelos pecados dos outros. Mas, desde que todo descendente de Eva é formado em pecado e concebido em iniquidade, como poderia qualquer um de sua semente estar sem pecado? Somente a Onisciência poderia trazer algo imaculadamente puro da completa impureza.  


Não devemos perder de vista os fundamentos em que a corrupção e culpa aderem à nossa natureza, como elas atuam em todos os indivíduos. Primeiramente, toda a nossa natureza, quanto à participação nela, estava em Adão como nossa cabeça pactual e representante federal. Portanto, sua ofensa era nossa também, e justamente imputada a nós. Porque nós pecamos nele, nos tornamos “por natureza filhos da ira”, os sujeitos do desagrado judicial de Deus. Em segundo lugar, nós derivamos a nossa natureza de Adão por meio de geração natural, de modo que a sua profanação é comunicada a todos os seus descendentes. Nós somos as plantas degeneradas de uma vinha degenerada. Assim, ainda outra dificuldade foi apresentada: a natureza de um libertador para o homem caído deveria, como em sua substância, ser derivada de nossos primeiros pais, mas de modo a não ser em Adão como representante legal, nem ser derivado dele por geração natural. Mas como isso poderia ocorrer: que sua natureza estivesse verdadeiramente relacionada a Adão, como a nossa, e ainda assim, não sendo participante da culpa de sua transgressão, nem participando de sua contaminação? Tal prodígio estava totalmente fora do conceito de toda mente finita.



Extraído do sermão: A Infinita Sabedoria de Deus Demonstrada na Salvação dos Pecadores - Arthur Walkington Pink - Parte 1 


Sola Scriptura! 
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Sola Fide! 
Solus Christus! 
Soli Deo Gloria!


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